Pedro de Almeida: "Grupo VW vai tornar-se prestador de serviços de mobilidade e conveniência"

Entrevista a Pedro de Almeida, administrador executivo da SIVA desde 2017

Pedro de Almeida espera que a legislação europeia autorize os veículos autónomos este ano, porque os considera mais seguros. O CEO da SIVA, que representa o grupo VW, diz que o futuro das marcas está na prestação de serviços e defende que Portugal crie novos incentivos para aumentar a adesão aos veículos elétricos.

Como é que o Grupo Volkswagen vê o futuro da mobilidade?

O Grupo VW vê uma revolução a acontecer no setor automóvel. De um lado temos a procura de uma circulação mais eficiente e o menor sentimento de posse face aos carros das novas gerações. Do outro, a pressão ambiental. E a tecnologia, por seu turno, leva-nos à eletrificação e à condução autónoma. O grupo quer aproveitar e liderar as oportunidades desta revolução e definiu uma estratégia que se chama Toguether 2025.

Quais os passos dessa estratégia?

O Grupo VW vai assumir-se essencialmente como prestador de serviços de mobilidade. Isso vai acontecer através de serviços, que podem ser de carsharing, assistência na rua e, devido à crescente conectividade do carro, vendas de acessórios ou pagamentos de gasolina. Pode ser diretamente ou por via de parcerias.

Um exemplo disso é a Moia...

A MOIA é uma marca do Grupo VW, uma empresa de mobilidade, que está a desenvolver um carro, que há de ser um minibus autónomo elétrico e partilhado. Este investimento é um exemplo da forte aposta na mobilidade do futuro.

A revolução a que aludiu vai passar mais por híbridos do que por elétricos?

Há uma visão comum das marcas: em 2030 teremos qualquer coisa como 20% a 25% de carros elétricos. Essa alteração já poderá ser suficiente para nos obrigar a repensar o serviço pós-venda. Mas ainda vamos continuar a ter 75% a 80% de veículos a combustão. Em relação aos carros autónomos, não há previsões muito claras. Por exemplo, o Audi A8 tem um grau A3 de autonomia mas não pode ser usado na UE, porque nenhum país europeu tem legislação adequada. Talvez em 2018 isso venha a ocorrer. Em 2025 acho que 100% dos carros vão estar conectados. Essa ligação dos carros ao mundo abre um leque de oportunidades de novos serviços convenientes.

Um exemplo de novos serviços pode passar por rentabilizar o nosso carro?

Sim, há experiências em que, através de um acordo com uma empresa logística que transporta volumes, os carros dos clientes fazem esse transporte e ganham dinheiro com isso.

Quantos modelos elétricos e híbridos tem o grupo e quantos espera vir a ter?

A VW tem dois elétricos e dois híbridos: o Up e o Golf elétrico e o Golf Passat. A Audi tem o A3 e o Q7 híbridos. Até 2021 estima-se que as marcas do grupo tenham mais de 20 modelos elétricos ou híbridos.

Como têm evoluído as vendas deste segmento em Portugal? Que previsões?

Duplicam de ano para ano. Venderam-se perto de mil em 2016 e perto de dois mil em 2017, ou seja, o crescimento percentual é alto, mas a base ainda é muito baixa. Prevê-se um crescimento elevado.

Quais os maiores obstáculos a esse crescimento: os preços, a autonomia, a falta de postos de carregamento?

A autonomia e o preço são com certeza obstáculos e também ajudaria ter mais postos de carregamento. Mas acho que há, sobretudo, poucas vantagens de conveniência para os compradores. Por exemplo, na Noruega, em que mais de 50% das vendas são de elétricos, há incentivos de conveniência como o não pagar o ferry boat nem estacionamento ou poder andar com o carro na faixa bus.

Faz sentido adotar um modelo semelhante em Portugal?

Acho que faria todo o sentido pensar em incentivos de conveniência.

A tecnologia já criou a condução autónoma, mas não está a avançar. É um problema de confiança e segurança?

Isso acontece porque legislar envolve pessoas. Imagine uma situação de risco em que a inteligência do carro tem de decidir se bate numa pessoa que está do lado direito ou noutra que está do lado esquerdo. De quem é a responsabilidade? E se o carro for autónomo e partilhado? Não é óbvio quem vai ser responsabilizado. Em matéria de segurança o erro de um carro autónomo é menor do que de um ser humano. Estes carros vão bater menos.

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