Patrões e UGT próximos de acordo laboral

CGTP não se revê na proposta e acusa governo de estar a promover a manutenção da precariedade

As confederações patronais admitem vincular-se a um acordo sobre o pacote laboral de combate à precariedade, mas para que da reunião da concertação social de hoje saia fumo branco será necessário que o texto que o ministro Vieira da Silva vai colocar em cima da mesa tenha acolhido algumas das sugestões que os patrões lhe foram fazendo chegar nestes últimos dias. A expectativa é que o texto final "tenha melhorado" face ao que foi apresentado na semana passada e abra caminho à assinatura de um acordo, ao qual a UGT também pondera juntar-se. A CGTP distancia-se e teceu ontem duras críticas a algumas das medidas, que classifica de "inadmissíveis".

"Tudo depende do documento final que o governo nos vai trazer", começa por referir o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) que, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, salientou não acreditar que o trabalho realizado nestes últimos dias não resulte "numa posição melhorada" face à proposta que foi apresentada aos parceiros na quinta-feira.

Ou seja, há abertura para assinar um acordo, mas "dentro de um quadro de razoabilidade", afirma António Saraiva. Também o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal refere que o texto tem de ser alterado para que possa ter luz verde da CCP. "Não colocámos linhas vermelhas, mas fizemos um conjunto de sugestões ao governo. Se nada for acolhido, vai ser difícil subscrever o documento", precisa João Vieira Lopes, fazendo uma leitura idêntica à Confederação do Turismo de Portugal que também sugeriu mudanças.

Entre as alterações que defendem, a CCP e a CTP incluem a eliminação da nova lógica da renovação dos contratos a prazo. Ou seja, aceitam que o período máximo destes contratos possa ser reduzido de 3 para 2 anos, mas contestam a ideia de que as renovações não possam exceder a duração inicial.

A CCP também tem reservas sobre a taxa contributiva para penalizar com níveis de rotatividade acima da média do setor e discorda que as empresas de trabalho temporário possam ser apanhadas por esta penalização. Já a CTP, junta a esta lista um afinamento na proposta do governo aos bancos de horas grupais alcançados por consulta aos trabalhadores. A fórmula prevista é "complicada", precisa Francisco Calheiros, salientando que as sugestões vão no sentido de acompanhar o corpo principal do texto do governo, mas defendendo alterações específicas que o clarificam.

António Saraiva não detalha as mudanças que sugeriu, e que poderão levantar as "reservas" da CIP, e espera que uma vez alcançado um acordo na concertação social, este seja acompanhado ao nível parlamentar. Esta é também a expectativa da UGT, tendo Carlos Silva adiantado ao DN/Dinheiro Vivo que, se for alcançado um acordo, a UGT pretende marcar reuniões com todos os partidos para os sensibilizar para a importância de o viabilizarem. Vieira Lopes passa a bola ao governo dizendo que é a este que cabe garantir maiorias políticas.

A proposta vai a votos dia 6 de julho, mas é já quase certo de que não contará com o apoio do PCP e do BE que estão contra o alargamento do período experimental (de 90 para 180 dias) e o facto de se manter a caducidade dos acordos coletivos.

Antes de os partidos se pronunciarem, também a CGTP deverá deixar bem clara a sua oposição a algumas das medidas. Num comunicado ontem emitido, a central sindical liderada por Arménio Carlos explica que não aceita o alargamento do período experimental e que não seja dado aos contratos de trabalho temporário (6 renovações) o mesmo tratamento dado aos a prazo.

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.