Papa, Autoeuropa e Web Summit dão empurrão à economia

Investimento privado dispara com fundos da UE. Exportações mantêm músculo. Juros baixos mesmo sem ajuda do BCE

O ambiente vai ficar claramente mais favorável na economia portuguesa ao longo deste ano e dos próximos, a julgar pelas novas previsões do Banco de Portugal. Os juros da República e os indexantes do crédito à habitação devem manter-se estabilizados até 2019, apesar da esperada diminuição nos estímulos do BCE a partir do final deste ano. Este programa especial e temporário de compras de dívida pública aos bancos tem permitido manter os juros soberanos em níveis reduzidos.

Assente nestas hipóteses, a retoma vai ganhar alguma força, o investimento privado subirá bastante, as exportações devem manter o músculo - e até a visita do Papa, mais a Autoeuropa e a Web Summit irão dar um empurrãozinho. O desemprego pode cair para um nível inferior a 8% dentro de dois anos.

As novas projeções do Banco de Portugal, ontem apresentadas, estão a contar com a manutenção da taxa global (implícita) da dívida pública em 3,3% entre 2016 e 2019. A taxa Euribor a três meses mantém-se negativa até 2018, subindo para apenas 0% no último ano da previsão. Só para se ter uma ideia, a taxa implícita da dívida calculada no mês passado pela Comissão Europeia é duas décimas mais cara (3,5%). E a taxa de juro a dez anos para Portugal negociava ontem acima dos 4%. É, portanto, uma folga importante, tendo em conta a fatura de 8,3 mil milhões de euros em juros que vão ao défice deste ano.

"No contexto de uma política monetária acomodatícia [do Banco Central Europeu], assume-se a manutenção de taxas de juro muito baixas, embora com um perfil ascendente ao longo do horizonte de projeção. O nível antecipado para esta taxa de juro de curto prazo manteve-se virtualmente inalterado face ao apresentado em dezembro", diz o banco governado por Carlos Costa. Isto ajudará a banca, o investimento privado e as exportações. Haverá mais emprego, sobretudo no setor privado. Os salários é que não devem subir muito. A produtividade é baixa, avisa.

O crescimento da economia foi revisto em alta de forma significativa face há três meses. O cenário macro prevê uma expansão real do produto interno bruto (PIB) de 1,8% em 2017, mais quatro décimas do que se esperava em dezembro. A "forte" recuperação" do investimento privado e o dinamismo das exportações, designadamente do turismo, ajudam a explicar a recuperação até 2019. O novo modelo de automóvel a produzir a partir deste ano na Autoeuropa, a visita do Papa a Portugal em maio e os inúmeros eventos internacionais previsto (Web Summit e outros) foram incorporados nestas melhores expectativas: as últimas duas alimentam a faturação do turismo.

Além do "crescimento forte do investimento empresarial" (quase 7% neste ano), a procura global continua a ser favorável ao país. As exportações acabam por subir uns expressivos 6% em termos reais neste ano. O Banco de Portugal mostra no entanto, que, mesmo com mais investimento, este não consegue superar os níveis pré-crise, de 2008.

O desemprego deve descer para 9,9% neste ano (governo diz 10,3% e Bruxelas 10,1%), acompanhado pelo aumento do emprego no setor privado, que pode chegar a 1,6%. O desemprego alivia ainda porque tenderá a haver menos emigração/mais imigração, bem como mais gente a trabalhar até mais tarde.

O estudo refere que, embora neste ano ainda se note um certo impulso da atualização do salário mínimo para 557 euros brutos, o crescimento real dos salários é fraco. O Banco de Portugal assume que a subida do salário mínimo só acontece neste ano, só há acordo vinculativo em 2017. "No período 2017-2019, antecipa-se, no entanto, um baixo crescimento médio da produtividade, que se traduzirá num crescimento dos salários reais igualmente baixo."

No setor público, o banco central tem em consideração "uma diminuição dos encargos com parcerias público-privadas do setor rodoviário, em linha com a informação incluída no OE 2017" e admite "uma estabilização do número de funcionários públicos". Isto é, o emprego público deverá estagnar.

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