OCDE concorda com governo no défice mas rejeita retoma forte

Economia continua empatada no acesso a financiamento. Investimento perde força em 2018. OCDE vê expansão de 2,1% em 2017. Centeno dá a entender 3%

Portugal deve conseguir entregar um défice público de 1,5% do produto interno bruto (PIB) neste ano e de 1% no próximo, como promete o governo. Mas a retoma vai perder gás. O crescimento chega a 2,1% neste ano, mas abranda para 1,6%, diz a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Em abril, as Finanças projetaram uma retoma moderada neste ano (1,8%), mas de 1,9% em 2018, mais três décimas do que diz a OCDE. No entanto, o ministro, Mário Centeno, já elevou a fasquia, apontando agora para valores superiores a 2%, talvez próximos de 3%.

Em matéria orçamental, as novas projeções da OCDE, ontem divulgadas, consideram ainda que a política do governo é "amplamente neutra", o que significa que não prejudica nem impulsiona a economia real. A OCDE compreende que assim seja. Se o OE fosse muito expansionista, colocaria em risco a "sustentabilidade orçamental".

O clube dos países mais ricos refere que a economia portuguesa, sobretudo as empresas, continuará com problemas graves de acesso ao financiamento e que isso vai penalizar o investimento, que voltará a crescer pouco, mesmo com fundos europeus a entrarem no país. Depois de ter caído 0,1% no ano passado, o volume de capital fixo deve expandir-se 6,5% neste ano, mas em 2018 o ritmo volta a fraquejar, para 2,3%.

A procura interna "não deverá aumentar substancialmente devido ao endividamento do setor privado persistentemente elevado". "A inflação subjacente aumentará em 2018, devido a restrições de oferta, incluindo um declínio na população em idade de trabalhar."

Portanto, haverá uma pressão positiva sobre os salários, mas essencialmente nos mais qualificados, já que os trabalhadores com menos habilitações devem ficar na mesma, agravando-se as desigualdades.

Já o consumo privado não crescerá muito. Avança 2% neste ano e apenas 1,5% no próximo. As exportações, a variável que tem puxado pela economia, também perdem algum fulgor: crescem 5,5% neste ano e abrandam para 4,5% no próximo. "A recuperação gradual do crescimento do PIB continua a ser apoiada pelo aumento das exportações, com as vendas de mercadorias para destinos fora da União Europeia, como Angola, Brasil e China, a registarem recuperações particularmente fortes." E, de futuro, as exportações continuarão a puxar pela retoma.

Mas a ênfase do novo estudo é mesmo no deficiente mercado de capital. "O fraco acesso ao financiamento está a travar o investimento." "Apesar da política monetária altamente expansionista da zona euro, o investimento está a ser travado pela fraca rendibilidade e pelas elevadas necessidades de desalavancagem de muitas empresas."

Outro dos fatores que encravam a retoma e o potencial da economia é a apatia dos bancos. "Para restabelecer a saúde do setor bancário", Portugal deve arranjar um esquema de "incentivos regulatórios para que os bancos implementem um plano credível de reestruturação de empréstimos em incumprimento".

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