Não há muitas economias como a turca, mas os riscos vão além de Ancara

As sanções americanas fizeram tombar a lira e "uma pilha" de razões para a economia turca afundar. A Argentina volta a sofrer por efeito turco. Itália, Brasil, Ucrânia, Hungria e Egito estão na linha de risco

Recep Tayyip Erdogan acusa os Estados Unidos e os investidores internacionais de bullying ao país, mas as sanções impostas por Washington aparecem aos mercados como "apenas um extra na pilha" de problemas económicos da Turquia. Uma pilha que ameaça ruir e atingir parte da Europa e os países emergentes em maior vulnerabilidade fiscal. De Itália ao Egito.

"As sanções dos Estados Unidos não são a raiz do problema. A raiz do problema são as vulnerabilidades macroeconómicas da Turquia", diz ao DN/Dinheiro Vivo Oliver Jones, analista de mercado da Capital Economics.

"A raiz do problema são as vulnerabilidades macroeconómicas da Turquia"

Os males de que padece a Turquia começam num défice externo de 57,38 mil milhões de dólares, nos 12 meses terminados em junho, passam por uma inflação cerca dos 16% no final do último mês, e terminam numa política monetária alegadamente controlada pelo presidente turco, com o banco central a coibir-se até aqui de subir juros apesar da inflação a dois dígitos.

A tudo isto, junta-se um conflito diplomático entre aliados da NATO que não tem encontrado resolução. Os Estados Unidos castigaram Ancara com o dobro de tarifas para alumínio e aço que estão a aplicar a outros países já depois de terem aplicados sanções financeiras a dois ministros do executivo Erdogan. A exigência de libertação das prisões turcas de um pastor evangélico norte-americano acusado de espionagem, Andrew Brunson, é também apenas um dos diferendos numa pilha de razões para desavença onde entram planos de compra de material militar russo pela Turquia ou a aproximação de Washington ao movimento curdo na Síria.

Mas Washington parece ter acicatado a reação de mercado à Turquia sem alterar o fundamental. "As sanções dos Estados Unidos são apenas um extra que se junta à pilha", diz Oliver Jones. Desde o início do ano que a Turquia é apontada como um dos países mais vulneráveis do mundo emergente frente à subida do dólar devido à sua situação fiscal, com marcadores negativos na trajetória da dívida externa (a acelerar, embora abaixo de 30% do PIB), na exposição aos investidores internacionais (têm perto de 40% da dívida pública) e na dívida denominada em moeda estrangeira (também quase a tocar os 40%).

"As sanções dos Estados Unidos são apenas um extra que se junta à pilha"

A lira está em queda livre desde a semana passada e a perder 45% desde o início do ano. Com uma larga parte da dívida turca em dólares, Ancara está agora a dever muito mais ao resto do mundo, e a preços cada vez mais caros. Os custos com a dívida turca soberana nos mercados secundários têm disparado e já há receios de contágio a Itália.

Uma conjugação "letal" para Itália

À medida que os investidores procuram alívio do risco no refúgio da dívida alemã, o diferencial de custos em Itália aumenta. A diferença de trajetória entre as dívidas de Roma e Berlim mostra-se já insustentável para alguns analistas, como os do Bank of America Merril Lynch, por força da situação política do país do Mediterrâneo.

"O colapso da lira turca de de outras moedas de mercados emergentes aponta para mais problemas para os bancos italianos, mas também ameaça empresas italianas, pouco competitivas de uma forma geral, que enfrentam já os obstáculos de uma libra esterlina e de uma coroa sueca mais fracas", afirma Charles Gave, da consultora Gavekal Research. O analista de táticas de investimento diz que a atual conjugação de fatores "parece letal para a Itália".

A possibilidade de contágio à zona do euro, com o Banco Central Europeu a monitorizar a exposição de bancos espanhóis, italianos e franceses à Turquia, está nas folhas de cálculo dos analistas e investidores. Mas, sobretudo, são os restantes mercados emergentes os mais expostos - agora, ao dólar e a Ancara. Há nesta altura algum país tão suscetível quanto a Turquia? Há um, diz Oliver Jones, mas neste a crise já se instalou há algum tempo.

"A única economia que se aproxima da economia da Turquia é a Argentina, que já viu a sua moeda cair para mínimos recorde este ano e que entretanto recorreu ao Fundo Monetário Internacional", diz o analista da Capital Economics.

"A única economia que se aproxima da economia da Turquia é a Argentina, que já viu a sua moeda cair para mínimos recorde este ano e que entretanto recorreu ao Fundo Monetário Internacional"

A crise cambial argentina viu o peso do país tombar para mínimos que estão agora a ser suplantados por efeito da Turquia. A moeda argentina, mesmo com a intervenção do FMI no país, voltou ontem a ceder, levando o banco central de Buenos Aires a elevar a taxa de juros do país para 45% esta segunda-feira.

Mas, apesar das semelhanças entre as duas economias, na Turquia há "uma situação bastante extrema", diz Oliver Jones. "Não há outros países na mesma situação. E há poucos países onde a política económica seja tão errática quanto a da Turquia", defende.

Nos mercados emergentes, além da Turquia e da Argentina, Brasil, Ucrânia, Hungria e Egito são atualmente apontados como os países com menores defesas face à turbulência dos mercados internacionais. O Instituto de Finanças Internacionais estima que haja mais divisas na balança cambial global ainda por ajustar à subida do dólar, e admite mais surpresas.

Brasil, Egito, Hungria e Ucrânia vulneráveis

"Monitorizámos sistematicamente os mercados emergentes em busca de vulnerabilidades externas no início do ano. A Argentina e Turquia davam sinal vermelho e subsequentemente estiveram sob intensa pressão de mercado. Desde então, ambos os países ajustaram-se bastante mas algumas moedas noutros pontos dos mercados emergentes parecem-nos caras", afirma Dylan Riddle em nota da organização.

Na linha da frente do riscos está o real brasileiro, prejudicado pela incerteza de próximas eleições, mas ajudado por uma menor exposição externa. Por outro lado, "a vulnerabilidade é significativa no Egito e na Hungria, ainda que se projete uma queda da dívida em ambos os países". Já na Ucrânia, o apoio do FMI no presente poderá limitar alguns riscos, estima a análise do Instituto de Finanças Internacionais.

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