"Mesmo quem manteve o emprego passou a ter medo"

José Reis, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

José Reis, professor catedrático de Economia, diz que em momentos de crise, como a vivida nos últimos anos, as famílias tendem a ajustar mais em gastos como lazer e cultura. Está preocupado com o arrendamento e com uma possível nova bolha imobiliária.

As famílias terão cortado em cultura, lazer, férias, para conseguir aguentar a casa, os consumos domésticos, o custo com a educação?

Parece-me razoável admiti-lo. Na última década, mas sobretudo nos últimos cinco anos, marcados pelo duro ajustamento do anterior governo e da troika, podemos dizer que a maioria das famílias passaram um mau bocado. O desemprego subiu e as expectativas das pessoas caíram a pique. Mesmo quem conservou o emprego passou a ter medo. Ora isto gera uma enorme pressão sobre as decisões de consumo.

É mais fácil cortar em férias, lazer.

Claro. Os custos relacionados com a habitação e a alimentação são sempre muito mais rígidos do que, por exemplo, a despesa em lazer. Sempre que há constrangimentos, há efeito de substituição.

Sabemos que a crise afetou de forma diferente as pessoas. A estagnação da despesa anual média das famílias reflete o quê?

Sabemos que as desigualdades aumentaram e não podemos deixar de ler estes dados sem ter isso em mente. Se não for para termos uma atitude crítica, pelo menos para termos uma capacidade interpretativa melhor devemos ter em mente que durante a crise os mais ricos praticamente não terão sido afetados. Os sinais de ostentação - os automóveis topo de gama, que não sentiram a crise - continuaram apesar do ajustamento infligido à maioria.

A despesa estagna, mas na habitação sobe 39%. Como lê isto?

Quando olhamos para o que está a acontecer aos centros urbanos percebemos que deixou de haver mercado de arrendamento a preços normais, ou compatíveis com o rendimento das famílias. A eletricidade em Portugal também é das mais caras da Europa. As empresas queixam-se, as famílias queixam-se. Todos sabemos que os salários de pessoas como António Mexia e outros saem dos nossos bolsos por via deste modelo rentista.

Há uma bolha na habitação?

Temo que sim. Diferente da que aconteceu no passado que teve que ver com crédito hipotecário e que acabou por dar nisto, em bancos a tentarem livrar-se de quantidades enormes de malparado, não se sabe bem como. Se houver uma bolha, e julgo que ela está a formar-se, terá que ver com os fundos imobiliários que estão a comprar largas fatias das nossas cidades, como Lisboa.

Temos retoma com pouco emprego. Isto altera o consumo?

É um freio às expectativas. A grande mudança, talvez a mais terrível e profunda, que aconteceu em Portugal, tem que ver com a ascensão da cultura da desvalorização do trabalho. Hoje a cultura que está instalada é de quanto mais barato melhor, é termos licenciados a viver em situações precárias, a servir no setor do turismo, a trabalhar à borla na esperança de poderem vir a ter um salário miserável, a saltar de part-time em part-time. Esta desvalorização do trabalho é um sinal claro de que se está a investir pouco ou nada em capital humano e isso vai ter um preço muito alto.

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