Mais de 2600 desempregados usam subsídio para criar o seu emprego

Foram aprovados mais 600 projetos com entrega parcial das prestações. Em troca, o beneficiário promete gerar o próprio trabalho

No verão de 2015, Joana Valadares e Teresa Madeira viram fechar a empresa onde trabalhavam há 20 anos. Sem trabalho, mas com vontade para iniciar um projeto próprio, procuraram opções. Acabaram por esbarrar no "montante único", o mecanismo do IEFP que entrega o subsídio de desemprego numa única prestação para que o beneficiário possa assegurar o próprio posto de trabalho. Submeteram um projeto no final desse ano e em abril conseguiram avançar. Com os dois subsídios integrais chegou a Mimobox, uma caixa surpresa que as grávidas e mães de bebés até 3 anos recebem em casa, com artigos para experimentarem, adequados à idade e características dos seus filhos.

"Já que esta possibilidade de entrega do subsídio existe, quisemos experimentar. Sem esta ferramenta, a Mimobox até poderia ter avançado, mas não tão rapidamente. Mal ficámos desempregadas, arregaçámos as mangas e fomos à luta", contou Joana Valadares ao DN/Dinheiro Vivo.

O caso das duas sócias está longe de ser o único. Em 2015, a Segurança Social processou 2740 entregas da prestação de desemprego de uma só vez; no ano passado houve outros 2673 a pedirem o subsídio antecipado para criar o seu próprio emprego.

A entrega de uma só vez está sempre dependente da validação do projeto pelo IEFP e só avançam os negócios que o organismo considera viáveis. Há um senão: os beneficiários ficam obrigados a manter este negócio, e consequentemente os seus postos de trabalho, durante três anos. Caso isto não aconteça, as regras do "contrato" são quebradas e as prestações têm de ser devolvidas.

Foi o que aconteceu com Maria. Com a crise financeira que começava a instalar-se em 2009 e o colapso do mercado imobiliário, acabou por ficar sem o emprego de uma vida. Tinha quase 40 anos e, perante a sombra e o receio de um desemprego de longa duração, também recorreu ao montante único para criar o seu negócio. Montou uma empresa na área da estética e bem-estar, mas não correu bem. Antes de a empresa fazer um ano viu-se obrigada a fechar portas, o que implicou, não só ter de devolver todo o dinheiro pago, como ficar sem subsídio, e sem emprego. Valeu-lhe o apoio familiar, porque emprego só conseguiu quase quatro anos depois. Nessa altura voltou a reinventar-se e mudou, novamente, de área.

Nem todos os subsídios de desemprego se esgotam na presta-ção de montante único. A grande maioria dos pedidos registados no ano passado (2066) dizem respeito a entregas numa única vez, mas também houve seis de ex-patrões e 601 prestações entregues sob a figura do montante único parcial. Ou seja, o IEFP avançou apenas o montante necessário para fazer face ao projeto, distribuindo o restante valor a que o beneficiário tem direito pelos meses do subsídio. Por exemplo, uma pessoa que receba uma prestação de 500 euros/mês e que à data em que a Segurança Social paga o montante único ainda tenha direito a mais 12 meses de subsídio tem a receber seis mil euros. Se as despesas elegíveis do projeto ascenderam apenas a 4000 euros, ainda fica um crédito de 2000 euros que será repartido pelo valor da prestação (500 euros), o que dá mais quatro meses de subsídio a acumulação do novo trabalho por conta própria. Com a mudança na lei em 2012 o subsídio de desemprego passou a ter um tecto máximo de 1053,30 euros e a sua duração máxima foi reduzida de 38 para 26 meses. Mas as pessoas com mais anos de descontos têm direito a 36 meses, o que significa que, no máximo, o valor global a entregar rondará 37 mil euros.

A Mimobox faz agora um ano e, por isso, Joana e Teresa estão longe de ter passado o vale da morte que lhes pode custar todo o subsídio. Mas "os objetivos estão a ser cumpridos" e o negócio está a correr bem. "Obviamente que tivemos em conta esta exigência [dos três anos] - o próprio IEFP chama muito à atenção para essa questão. Mas acreditávamos e acreditamos na nossa ideia e o negócio tem corrido muito bem."

Desde que nasceu a Mimobox já se aliou a mais de 100 marcas de puericultura, roupa e cosmética, tendo entrado nas caixas-surpresa mais de 300 produtos diferentes. "Não somos apenas um negócio de experimentação, também somos um negócio de marketing para as marcas e ultimamente temos sido muito procurados por empresas de dermocosmética", contam as sócias. O próximo passo é estimular o contacto físico deste negócio que atualmente é 100% online. Um bom exemplo para os 221 234 desempregados que, em janeiro, recebiam subsídio.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.