Lisboa e Madrid querem mercado de 260 milhões 

Parceiros ibéricos pretendem finalizar acordo da UE com países da América Latina neste ano. Negociações começaram em 1999

A Europa tem, nos próximos meses, oportunidade de fechar acordo com um mercado de 260 milhões de consumidores, o Mercosul, concluindo um processo de negociações que se arrasta, sem sucesso, desde 1999. Portugal e Espanha têm vindo a favorecer as negociações no quadro europeu e dizem-se empenhados em assegurar que este se conclua brevemente.

"Na União Europeia estamos empenhados nisto, com Portugal e Espanha à cabeça daqueles que querem avançar com maior velocidade e profundidade na conclusão dos acordos, ainda em negociação, com a América Latina e com África", afirmou ontem em Lisboa o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Espanha, Alfonso Dastis.

O responsável pela política externa espanhola foi o principal orador numa conferência organizada pelo Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL) para discussão de formas de cooperação entre América Latina e Caraíbas, África e Europa, com a participação de responsáveis políticos e empresariais dos três blocos que confluem no Atlântico. Para Alfonso Dastis, uma "região emergente" na qual o acordo Bruxelas-Mercosul mostraria não "uma Europa ensimesmada" mas antes "uma Europa exploradora, inovadora, aberta aos grandes espaços".

Em março, responsáveis da União Europeia e do bloco que reúne Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai realizaram uma nova ronda nas negociações, relançadas em 2016, para um acordo de livre comércio. A dividir os dois blocos estão sobretudo as tarifas de acesso da indústria automóvel europeia ao mercado da América Latina e as que são relativas à entrada de produtos agrícolas de países como Brasil e Argentina no mercado europeu - com maior oposição do Brasil e de França, respetivamente.

"Temos em conjunto, dentro das realidades económicas nacionais que temos e em que trabalhamos, de continuamente eliminar as barreiras de natureza tarifária e não tarifária", defendeu pela parte portuguesa Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado português da Internacionalização.

"O esforço que fizemos com o México, com a União Europeia, celebrar acordo com o México é o caminho adequado a percorrer. Permitiu proteger o trabalho e qualificar as condições de trabalho, proteger investimento, proteger denominações de origem. Mas ainda assim é possível fazer trocas de forma mais eficaz com o México", defendeu Brilhante Dias.

Se o esforço dos parceiros ibéricos - os que mais beneficiarão do acordo - parece assegurado, já a janela política para chegar a termo nas negociações parece mais curta. O Brasil prepara-se para ter eleições neste ano, a Argentino no próximo, e o executivo europeu é também substituído em 2019.

"Quero deixar uma mensagem clara a todos os meus amigos europeus. Este é o momento para tomar uma decisão no acordo entre a União Europeia e o Mercosul", apelou Susana Malcorra, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina. O Mercosul tem sobretudo tarifas elevadas no setor automóvel, de maquinaria, de produtos químicos e farmacêuticos.

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