"Investidores ficaram com medo de Portugal"

Gestora americana BlackRock refere casos recentes na banca nacional para justificar receios e desconfiança sobre o país

"Os investidores tornaram-se mais receosos quanto à situação de Portugal." O alerta foi dado ontem pela BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos mundiais e, paralelamente, uma das mais atingidas pela recente decisão do Banco de Portugal em passar as obrigações seniores do Novo Banco para o BES. Sem fazer qualquer referência a este caso, o vice-presidente da área de investimento em obrigações da BlackRock defendeu que a confiança dos investidores na dívida portuguesa ficou afetada.

Em entrevista à Bloomberg TV, Scott Thiel começou por salientar que a gestora "gosta de Portugal do ponto de vista de fundamentais". O responsável diz que "o mercado reagiu de forma relativamente negativa quanto à situação política portuguesa", o que se refletiu num agravamento dos juros da dívida, mas acrescentou: "Obviamente, com o que aconteceu com alguns bancos em Portugal, os investidores tornaram-se mais receosos quanto à situação de Portugal."

O comentário do responsável da BlackRock foi feito no âmbito da pressão que as obrigações e as ações nacionais voltaram a ser alvo por parte dos investidores internacionais. De acordo com a Bloomberg, as taxas de juro exigidas pelos investidores para negociar dívida portuguesa não estão muito distantes das yields (rendimento) pedidas na transação de dívida alemã há seis meses, um indicador de desconfiança na dívida portuguesa. Outro sinal claro são os juros da dívida a dez anos, a referência do mercado, que subiram para 2,78%, o nível mais alto desde novembro.

A decisão de passar para o BES cinco séries de obrigações seniores (não subordinadas) apanhou de surpresa os investidores e a contestação não se fez esperar. Inicialmente, foram vários os clientes particulares a queixar-se, uma vez que apesar de essa dívida ter sido sobretudo destinada a investidores institucionais (fundos de investimento, fundos de pensões, seguradoras) houve particulares que a adquiriram no mercado secundário e já depois da resolução do BES.

Nos últimos dias, as vozes que se têm levantado são de grandes investidores internacionais, que ameaçam mesmo com processos judiciais, alegando que está a ser violado o princípio da igualdade de tratamento para proteger os detentores de títulos da mesma classe. A gestora de ativos norte-americana Pimco foi uma das que se manifestaram e, segundo a Bloomberg, poderá ter de assumir perdas de 228 milhões. Já a BlackRock, que continua sem se pronunciar sobre o facto de ter sido afetada pela decisão de retirar dívida do Novo Banco, poderá ter perdas de 254 milhões de euros.

Os ataques à solução encontrada pelo Banco de Portugal para "completar" a resolução do Novo Banco não ficam por aqui. O FT destacou neste domingo que os bancos mais frágeis do Sul da Europa, como "outros bancos portugueses" e bancos italianos mais pequenos, estão a ser "contaminados" com o "precedente aberto" no Novo Banco, que leva a perdas avultadas de dinheiro aplicado por investidores "institucionais", como os gigantes da gestão de ativos Pimco e BlackRock. "Os investidores também dizem que a solução para o Novo Banco contaminou o mercado para os bancos mais fracos no Sul da Europa", acrescentou o jornal.

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