Impresa desfaz-se das revistas e aposta na TV e no digital

Elevado endividamento da dona da SIC e Visão e o falhanço da recente emissão de dívida colocou grupo sob forte pressão

O futuro de duas centenas de colaboradores da Impresa ficou suspenso depois de o grupo ter anunciado ontem à tarde que vai "reduzir a exposição ao segmento de revistas". A dona do jornal Expresso e da estação de televisão SIC decidiu vender as 13 revistas do grupo, incluindo a Visão.

Foi Francisco Pedro Balsemão, presidente executivo do grupo, que deu a notícia aos diretores. A notícia foi depois comunicada em plenário aos trabalhadores da Visão. Ao todo, esta revista emprega cerca de 50 colaboradores diretos, mas, no global, as revistas do grupo dão trabalho a cerca de 200 funcionários. Entre as revistas detidas pela Impresa estão ainda a Caras, Exame, Exame Informática, Blitz e a Activa.

A prioridade do grupo de Pinto balsemão é melhorar a sua situação financeira, tendo para isso reorientado a estratégia para passar a focar-se no digital e no audiovisual. O objetivo do grupo é agora abandonar todo o investimento que se prende com revistas e papel, exceto o jornal Expresso, um cenário que não se colocava há cerca de um mês atrás.

Terá sido, alegadamente, a pressão dos bancos credores da Impresa que forçou esta mudança de estratégia. O próprio grupo admite, no comunicado divulgado ontem, que com "a prioridade passa por continuar a melhorar a situação financeira do grupo, assegurando a sua sustentabilidade económica e logo a sua independência editorial".

Além do elevado endividamento, a Impresa falhou recentemente uma emissão de dívida, que, após alguns adiamentos, acabou por ser cancelada. Um acontecimento que assustou os investidores (ver caixa).

Existem, ao que o DN/Dinheiro Vivo apurou, pelo menos três potenciais compradores interessados na aquisição de revistas da Impresa, que poderá vir a vender títulos individualmente. As conversações já estarão a decorrer entre a Impresa e os compradores que são, sobretudo, nacionais.

A Visão é o título mais apetecível por eventuais compradores. A revista semanal foi alvo de elogios por parte do presidente executivo da Impresa, e filho do fundador do grupo, Francisco Pinto Balsemão. Na última apresentação de resultados, a Visão foi elogiada pela melhoria da sua performance financeira e de vendas, tendo sido divulgada a projeção de um EBITDA positivo para o final deste ano, o que já não acontecia desde 2013.

Venda difícil

A operação de venda das revistas não se afigura fácil, segundo analistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo. O facto de o mercado português ser pequeno e haver cada vez mais leitores a migrar para os títulos digitais torna a tarefa da Impresa ainda mais complicada.

No global, as revistas do grupo valerão cerca de 32 milhões de euros atualmente, segundo fonte interna, mas as imparidades relativas a este segmento rondarão os 30 milhões de euros, se forem vendidas. Caso sejam encerradas, as imparidades relativas às revistas disparam no limite para os 50 milhões de euros, devido aos custos com os despedimentos.

E o encerramento de algumas das revistas do grupo é uma possibilidade forte, segundo analistas. "Portugal é um mercado muito pequeno e há cada vez mais leitores a migrar para os títulos digitais", alerta Albino Oliveira, gestor da Patris. O mercado de media e de publicidade tem sofrido uma mudança estrutural com o crescimento de gigantes mundiais como a Google e o fenómeno global das redes sociais que captam cada vez mais audiência. "Se para uma empresa com uma situação financeira de cinco estrelas a atual conjuntura já é difícil, imagine-se o impacto numa empresa com uma situação financeira complicada como a Impresa", afirmou o analista.

Ao que o DN/Dinheiro Vivo apurou não existe para já um prazo para fechar a venda das publicações, mas está a ser feita uma forte pressão para que o negócio seja concluído até ao final do ano.

Futuro incerto

O Sindicato dos Jornalistas pediu já uma reunião urgente com o presidente da Impresa, por estar "preocupado com a agitação no grupo".

O conselho de redação da Visão também se pronunciou ontem e mostrou-se solidário com a direção editorial para "procurar soluções" que viabilizem a revista.

Certo é que analistas duvidam de que o fecho ou a venda de revistas seja suficiente para inverter a situação financeira da Impresa, cujo acionista principal, Pinto Balsemão, insiste em controlar. E reafirmou-o numa entrevista dada este mês. "Eu morro, mas a família mantém-se." A dúvida é se a Impresa se manterá sob o controlo da família. Com E.T.

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