Guerra de primos faz tremer gestão do El Corte Inglés

Filhas do antigo líder querem afastar o atual presidente. Luta pelo poder apanha grupo num momento em que planeia entrar na Bolsa e emitir obrigações para abater dívida

É a última jogada no tabuleiro de xadrez que está a colocar em lados opostos a família dos fundadores do El Corte Inglés. O conselho de administração do grupo espanhol quer afastar o presidente, Dimás Gimeno, numa ação que conta com o apoio das suas primas, Cristina e Marta Álvarez, filhas adotivas do antigo presidente do grupo espanhol. Pelo meio, ficam ações judiciais e disputas em torno da herança de Isidoro Álvarez e tentativas de compra de posições minoritárias, num momento em que o grupo prepara a entrada em Bolsa no prazo de dois ou três anos e planeava, até ao verão, a emissão de 1,2 mil milhões de obrigações para abater a dívida.

A guerra na família pelo controlo de um colosso na distribuição e retalho que gera 15 mil milhões para a economia espanhola, ganhou visibilidade nos últimos meses, mas os primeiros sinais de que nem tudo ia bem começaram logo após a morte de Isidoro Álvarez, a 14 de setembro de 2014.

Havia muitos anos que o gestor tinha definido a sua sucessão. À semelhança do que tinha feito o seu tio, Ramón Areces, Álvarez escolheu o seu sobrinho para a liderança. Dimás Gimeno foi crescendo no grupo, tendo participado inclusive no desenvolvimento da operação em Portugal. Mas se dúvidas houvesse, na assembleia geral de 25 de agosto de 2013, Álvarez deixou claro que seria o seu sobrinho a assumir as rédeas.

A sucessão ocorreu sem sobressaltos poucos dias após a morte do CEO. Mas o mesmo não se pode dizer sobre a presidência da Fundación Ramón Areces, com 37,39% a maior acionista do El Corte Inglés. Foi preciso esperar seis meses para o tema ficar fechado. Terá sido a luta em torno da presidência da fundação que incendiou a guerra entre os primos. Dimas Gimeno defendia que devia ser o CEO do grupo a assumir, como até aqui, a presidência da fundação. Mas se Gimeno ficou com o poder de gestão, o capital ficou nas mãos das primas. As irmãs Álvarez detêm 69% da sociedade Isidoro Álvarez (IASA), 31% estão nas mãos dos tios (César e Maria Antónia) e primos, o segundo maior acionista do ECI com 22%. Um histórico do grupo, Florencio Lasaga, assumiu a presidência da Fundação, mas as irmãs Álvarez não só passaram a fazer parte do conselho como foi criado o cargo de vice-presidente, assumido por Cristina Álvarez. Ou seja, as irmãs passaram a controlar o grupo e, sendo Gimeno e sua família minoritários, não podem dispor dos dividendos da IASA sem o seu consentimento.

Conflitos na justiça

A guerra pelo controlo do grupo não se fez esperar, com as irmãs a deixar claro que não iriam ser acionistas passivas na gestão. O golpe quase final foi em outubro de 2017, quando conseguiram o apoio do conselho para retirar os poderes executivos a Dimas Gimeno e nomear dois conselheiros delegados. Agora querem afastá-lo por completo da gestão do grupo. Mas, segundo a imprensa espanhola, essa intenção foi comunicada verbalmente, o que poderá deixar espaço para chegar a acordo num outro campo: a justiça.

O conflito agudizou-se depois de María Antonia, a mães de Gimeno, ter avançado contra as primas. María Antonia e o seu irmão César pedem a nulidade das deliberações da assembleia geral da IASA em que se aprovou a redução do capital de 121 milhões para 50 milhões de euros, argumentando que esta decisão os prejudica, noticiou o El País. E avançou também com uma ação cível em que reclama cinco milhões da herança deixada pelo irmão, montante que inicialmente seria de dez milhões.

As irmãs Álvarez terão tentado ainda comprar a posição de 7% de Dimas Gimeno e da sua família na IASA, por 350 milhões. Um plano que, segundo o El Confidencial, terá tido a oposição dos credores, que recusam que o grupo aumente a dívida, já na ordem dos 3650 milhões. Os bancos que refinanciaram a dívida em janeiro colocaram várias cláusulas relativas ao uso do dinheiro em caixa e do seu nível de endividamento. O grupo comprometeu-se a reduzir a dívida através de uma emissão de obrigações de 1200 milhões.

As contas de 2017 vão ser aprovadas no dia 30 de maio. Poderá ser o ponto final no clima de tensão que ameaça a gestão do gigante espanhol da distribuição e retalho.

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