Galp trava investimento para pagar dividendos mais generosos

Petrolífera anunciou lucros de 602 milhões em 2017, um aumento de 25% e vai propor uma subida de 10% nos dividendos a pagar aos acionistas

Nos próximos dois anos, a Galp vai estar a carregar no pedal do travão no que diz respeito ao plano de investimento previsto até ao final da década. No encontro anual com a comunidade financeira internacional, no Capital Markets Day, em Londres, a petrolífera reduziu as previsões de investimento para mil milhões de euros, abaixo dos 1,2 mil milhões avançados no ano passado.

"O que é importante não é se aumentamos o investimento, mas se esse investimento tem como objetivo os 15% de retorno que estamos a perspetivar. Estamos numa inversão de ciclo de geração de caixa, que nos levará a 2020 com um cash flow acima de mil milhões", considerou Carlos Gomes da Silva, CEO da Galp.

O travão ao investimento vai permitir aumentar o dividendo pago aos acionistas em 10%, para 0,55 euros por ação. Este aumento explica-se também com as boas perspetivas financeiras, devendo o EBITDA situar-se em 1,8 e 1,9 mil milhões de euros em 2018, assumindo um preço de referência do brent de 60 dólares por barril. A petrolífera portuguesa registou lucros de 602 milhões de euros em 2017. Uma subida de 25% resultante do aumento da produção e dos preços de petróleo e gás natural, que compensaram a desvalorização do dólar. "Fizemos um crescimento inorgânico, com 150 milhões investidos em Carcará Norte, no Brasil. Fomos ao mercado, fomos capazes de investir em novos projetos, manter o plano de investimento, gerar caixa positiva, então também temos de partilhar com os nossos acionistas", justificou o CEO.

A Galp começa já a olhar para projetos de energias renováveis, com a promessa de investimentos entre 5% e 15%. Carlos Gomes da Silva fala mesmo em "centenas de megawatts de energia solar fotovoltaica no início da próxima década", na Península Ibérica. Mas o "foco inequívoco" da empresa continuará a ser a exploração e produção de petróleo e gás. Do investimento previsto, um terço será para a produção de petróleo, revelou o CFO Filipe Silva. "O Brasil deverá absorver metade deste valor e Moçambique um terço, na sequência do arranque do projeto de LNG [gás natural liquefeito] na bacia do Rovuma. Angola e as atividades de exploração e avaliação serão responsáveis pela restante fatia do investimento."

A petrolífera garante que, apesar do travão ao investimento, está de olho em novas oportunidades, e não só no Brasil. "Continuamos a analisar oportunidades na costa atlântica, com destaque para São Tomé e Namíbia", adiantou Thore Kristiansen, COO da área de produção. Em 2017, a Galp analisou 60 novos projetos petrolíferos, tendo apostado em apenas dois, no Brasil. Em 2018 duas novas plataformas petrolíferas flutuantes entrarão em funcionamento no Brasil - atingindo um total de nove -, país onde a Galp já concluiu cerca de 80% da primeira fase de investimento. "Mas não estamos desesperados para arranjar novos projetos", garantiu Carlos Gomes da Silva aos analistas e investidores.

Em Moçambique, a Galp está a desenvolver uma unidade de liquefação flutuante a instalar na área de Coral Sul e a preparar o desenvolvimento do projeto de Mamba. O primeiro gás natural deverá ser extraído em 2022. "Temos de correr e temos de correr depressa, e fazer as coisas da forma certa" em Moçambique, disse Carlos Gomes da Silva. "Isto não acaba aqui. Depois de 2020 será um novo ciclo de crescimento."

Em Londres

A jornalista viajou a convite da Galp

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