Exportações continuam a crescer até 46% do PIB já em 2019

A nova dinâmica exportadora das empresas portuguesas veio para ficar, podendo representar metade do PIB em 2025. A chave é a inovação. Empresas mais inovadoras têm lucros oito vezes maiores e criam quatro vezes mais emprego

As exportações vão continuar a crescer na próxima década, apoiadas na inovação, internacionalização e na melhoria do acesso ao crédito. Esta foi a ideia central da conferência de lançamento dos prémios Millennium Horizontes - iniciativa conjunta do Millennium bcp e do Global Media Group - destinados a apoiar as "empresas que conseguem ir mais longe".

Tal como referiu o novo presidente da AICEP, as vendas ao exterior deverão passar dos atuais 40% do PIB para 46% já em 2019. Luís Castro Henriques considera mesmo "provável" que em 2025 possam subir para um patamar de 50%.

Para este dinamismo, Castro Henriques considera ter contribuído a modernização do país, o investimento tecnológico, a abertura dos empresários à mudança e, em particular, a crise, "que pôs a tónica na necessidade de ir para fora".

Uma ideia partilhada pelo presidente do Conselho de Administração da Global Media Group, Daniel Proença de Carvalho, para quem a crise foi um "período triste", mas que teve o condão de "levar as empresas a um novo paradigma, assente na procura de novos mercados". Ainda assim, lembrou, só 3% do total das empresas exportam e há oportunidades por explorar na América Latina, Ásia e em África.

António Simões, presidente da Sovena, o primeiro operador mundial no setor de óleos e azeite, que em 15 anos passou de uma situação em que 80% do seu mercado estava em Portugal para outra inversa com 80% das vendas fora de portas, alinha no mesmo entendimento. É a diferença entre vender 200 milhões em 2001 ou 1500 milhões agora.

"Mais do que exportar, nós internacionalizámos", o que significa criar unidades de negócio nos mercados que se querem explorar, desde a Espanha ao Brasil, desde Marrocos a Angola e Estados Unidos. A Sovena, que já controla 40% do mercado ibérico, está apostada em criar um cluster em países do Mercosul, como Brasil, Chile e Argentina, e conta com um plano de investimentos em novas plantações superior aos 250 milhões de euros, que também incluem a Califórnia.

Instado pela moderadora - a diretora do Dinheiro Vivo, Rosália Amorim - a explicar como uma empresa de um setor tradicional consegue vingar na era da indústria 4.0, António Simões explicou, por exemplo, que a parte de irrigação de uma área que vai de Portugal a Espanha é gerida a partir de um computador em Ferreira do Alentejo.

É quando a inovação é integrada em todos os processos de uma empresa que se obtém os melhores resultados, lembrou o diretor-geral da COTEC, Jorge Portugal. Segundo aquele responsável, as empresas mais inovadoras exportam seis vezes mais, têm lucros oito vezes maiores, registam ganhos de produtividade por trabalhador 50% acima da média, criam quatro vezes mais emprego e pagam salários 60% mais elevados.

A COTEC assume como missão "ajudar as empresas a criar a sua rede de inovação", através, nomeadamente, de uma ferramenta de gestão desenvolvida para o efeito: a "Innovation Scoring". Segundo Carlos Cabeleira, da COTEC, aquela ferramenta já foi utilizada por mais de 700 empresas e funciona como um complemento à análise de risco dos projetos de inovação, que ficará disponível também para as empresas que se candidatarem aos prémios e lhes permitirá comparar os seus indicadores com a média do setor.

Também a The Navigator Company, que tem a maior fábrica de papel da Europa, conta com a inovação para combater as desvantagens naturais face a países como o Brasil, onde a quantidade de pasta de papel obtida por hectare é quatro vezes superior. A empresa, que fatura 1600 milhões de euros, optou por concentrar 75% da sua produção no papel, e mais de 50% das vendas em papel "premium" que permite ganhos substanciais nos preços, sobretudo nos mercados mais ricos, explicou o administrador Manuel Regalado.

"Estar nos mercados onde os clientes precisam que estejamos faz parte do nosso ADN", disse a administradora executiva do Millennium bcp, Conceição Lucas, referindo-se também às parcerias com bancos estrangeiros e à consultoria integrada "chave na mão" que o banco oferece aos clientes com projetos de internacionalização nos domínios financeiro e jurídico, entre outros.

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