Espanha teme que OPA à EDP seja "porta de entrada" de chineses

Escola de negócios ESADE alega que empresas como China Three Gorges podem ir para setores estratégicos europeus. Oferta tem de ser registada até 1 de junho

"Portugal pode ser a porta de entrada" da China nos setores estratégicos europeus, na sequência da OPA da China Three Gorges (CTG) à EDP. O alerta foi dado ontem por Ivana Casaburi, professora da escola de negócios espanhola Esade, que avaliou as "tendência de investimento chinês na Europa". A CTG tem até 1 de junho para registar a OPA sobre a EDP e a EDP Renováveis junto da CMVM - Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

Ivana Casaburi considerou ser "um risco" para os europeus aceitarem o domínio chinês nestas áreas económicas, até porque Pequim mantém a recusa em abrir estes setores a empresas estrangeiras. Lembrou ainda que França, Alemanha e Itália queriam criar um mecanismo comum que permitisse travar o investimento de fora da União Europeia a este tipo de ativos. Mas Bruxelas apenas vai avaliar o investimento se forem identificados riscos para a ordem pública e segurança.

A especialista reconheceu ainda que o principal argumento para que o governo português já tenha manifestado simpatia pela entrada da CTG é estar convencido de que a EDP irá manter melhor a sua integridade se for dominada por capitais chineses, havendo receio da sua diluição em empresas maiores se for comprada por uma companhia europeia. Lisboa não pode ver esta matéria a curto prazo, mas sim pensar na evolução a longo prazo, acrescenta a professora da Esade, citada pela Lusa.

Portugal foi o segundo país europeu que mais investimento chinês recebeu entre 2010 e 2016, se for ponderada a sua dimensão económica. Com um rácio de 3,66, o país ficou apenas atrás da Finlândia (4,47 vezes).

Em montantes, Portugal foi o sétimo país que mais capitais chineses recebeu, com 6,249 mil milhões de euros; Reino Unido, Alemanha e Itália foram as nações que mais investimento obtiveram da China.

O investimento chinês em Portugal poderá ser reforçado nos próximos meses se a CTG concluir a OPA sobre a EDP e a EDP Renováveis. A oferta está avaliada em 10,26 mil milhões de euros, mas o mercado acredita que os números vão subir mais. A operação tem de ser registada até 1 de junho junto da CMVM, ou seja, 20 dias depois (seguidos) do anúncio preliminar, informou ontem o "polícia" dos mercados.

Os clientes da EDP ainda não tomaram conhecimento da oferta chinesa. O DN/Dinheiro Vivo sabe que a empresa liderada por António Mexia não enviou ainda qualquer comunicação por escrito (carta, e-mail ou sms) sobre a operação aos mais de quatro milhões de clientes em mercado liberalizado nem aos clientes do serviço universal (cerca de um milhão).

Aos trabalhadores, Mexia fez questão de enviar um e-mail poucos dias depois da OPA, recomendando que se mantenham focados no trabalho. Com os diretores de topo da empresa, o líder da elétrica portuguesa fez questão de reunir pessoalmente para falar sobre a oferta.

As ações com a EDP, mesmo com o aviso de Espanha, subiram ontem 0,75%, negociando a 3,476 euros, mais 6,6% do que a contrapartida de 3,26 euros oferecida pela CTG. Com Bárbara Silva

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Anselmo Borges

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