Empresas que aproveitam os fundos europeus já são à partida mais fortes

Grupo de economistas do ISCTE, coordenado por Ricardo Paes Mamede, vai avaliar impacto dos fundos europeus de inovação e I&D no desempenho e na força das empresas portuguesas. Apresentação geral do projeto é hoje

As empresas que captam fundos comunitários atribuídos a Portugal já são, à partida, antes do apoio, mais fortes e promissoras. Empregam mais pessoas, pagam melhor, são mais produtivas, exportam mais, têm uma faturação maior.

Um grupo de oito peritos do ISCTE, coordenado por Ricardo Paes Mamede, vai fazer um estudo profundo sobre o que é que os milhares de milhões de euros em verbas da Europa fizeram à economia a nível mais micro. Vão tentar apurar o impacto desses fundos (o anterior quadro comunitário, o QREN) na chamada economia empresarial real; medir como se alterou o desempenho das empresas beneficiárias. E, já agora, como ficaram as outras, que não captaram ajudas. A apresentação geral deste projeto decorre hoje à tarde no ISCTE, em Lisboa.

Uma das primeiras conclusões extraídas do cruzamento entre várias bases de dados (Sistema de Contas Integradas das Empresas, do INE; Quadros de Pessoal, do Ministério do Trabalho, extensa informação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência) é que, tendencialmente, as melhores companhias captam os apoios mais facilmente.

"Parece-nos que as empresas em Portugal não têm desempenhos diferentes por serem apoiadas ou não. É possível que as que mais cresceram, tendo o apoio, fossem crescer mais de qualquer das formas", diz Paes Mamede, em conversa com o DN/Dinheiro Vivo.

Isso nota-se nos primeiros dados que emergem deste estudo. De facto, as empresas que se candidataram e tiveram subsídios do QREN já eram, à partida, mais musculadas do que as outras que nunca os receberam (ver quadro). As que foram apoiadas tinham quatro vezes mais trabalhadores ao serviço, já faturavam sete vezes mais, tinham uma produtividade do trabalho 70% superior, registavam níveis de investimento médios esmagadoramente maiores, pagavam melhor (mais 22%, em média) aos seus trabalhadores. E já exportavam alguma coisa, ao passo que as que não se candidatam aos fundos exportavam virtualmente zero, mostram os primeiros dados.

"Ou seja, as empresas apoiadas tendem a ser muito diferentes das empresas não apoiadas, antes mesmo de os apoios terem lugar", diz o coordenador da equipa.

Há várias razões que explicam o desinteresse de muitos empresários em relação ao QREN. "Há empresas que consideram os custos das candidaturas demasiado elevados e por isso optam por não ir aos fundos", por exemplo.

"Seria pois um erro afirmar que a política tinha funcionado só porque o desempenho médio das empresas apoiadas após o incentivo foi melhor do que o das empresas não apoiadas - a diferença pode dever--se ao facto de os sistemas de incentivos apoiarem empresas que são à partida mais promissoras."

No total, o QREN (a programação que correu entre 2007 e 2013) injetou na economia até 2014 mais de 21 mil milhões de euros. Os peritos vão analisar os efeitos de uma parte substancial desse dinheiro (cerca de um quarto) sobre a morfologia empresarial, o impacto dos cinco mil milhões de euros em subsídios entregues através do chamado "sistema de incentivos".

Paes Mamede explica que o desempenho das empresas (o resultado) mede-se através da evolução ao nível de "valor acrescentado, lucros, produtividade, emprego, volume de negócios, quota de mercado e taxa de sobrevivência". Os inputs são os apoios canalizados para "investimento em inovação, investigação & desenvolvimento, propriedade industrial, tecnologias da informação e comunicação e economia digital, novo equipamento de produção, gestão da qualidade, certificação, novas práticas de marketing, novas formas organizacionais".

O manancial de dados mostra ainda que os referidos cinco mil milhões de euros que vieram pela vertente "sistema de incentivos à inovação" corresponderam a investimentos totais elegíveis de 12,2 mil milhões de euros, distribuídos por quase 14,5 mil projetos.

Ou seja, o apoio europeu financiou, em média, 41% dos investimentos em causa. Cada projeto recebeu em média 349 mil euros. De todos os projetos que se candidataram, foram aprovados 52%.

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.