Em 2012, cinco horas bastaram para chanceler dar sinal de confiança a mercados

Em 2012, Portugal estava em pleno resgate financeiro e com um estrangulamento do crédito bancário às empresas privadas.

Esteve cerca de cinco horas em Lisboa. Foi uma visita relâmpago em novembro de 2012, em plena época de resgate financeiro do país, mas nessa curta passagem Angela Merkel por Portugal as mensagens políticas foram intensas.

A chanceler alemã aterrou na capital portuguesa a convite do então primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, que liderava um governo de coligação PSD/CDS e quis deixar uma nota de confiança de que Portugal iria cumprir o memorando de entendimento com a troika, que impunha medidas draconianas para equilibrar as finanças públicas e responder ao empréstimo de 78 mil milhões de euros.

Fonte do governo da altura sublinha ao DN que a visita coincidiu com um momento complexo em que várias medidas do governo tinha sido chumbadas pelo Tribunal Constitucional e era preciso encontrar outras alternativas para ter hipóteses de responder às regras impostas pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. "Ter cá a chanceler ajudou a fazer sobressair uma mensagem positiva para os mercados de que estávamos determinados a livrar-nos desta situação terrível".

A mesma fonte lembra que nesta altura Portugal vivia um estrangulamento do financiamento da banca às empresas privadas, agravado pelo facto das públicas concorrerem com elas nos pedidos de crédito. Isto porque o memorando da troika não continha nenhum envelope financeiro destinado ao setor empresarial do Estado. "Era importante que a chanceler tivesse a noção deste problema e ficasse "pressionada" para a necessidade de um maior volume de investimento externo no país", refere aquele membro do governo PSD/CDS.

A visita de Angela Merkel, disse ainda, foi importante porque permitiu lançar a discussão sobre a união bancária. "Era importante que estas mensagens fosse reforçadas no plano público e isso acabou mesmo por acontecer".

Mas e a chanceler foi recebida de braços abertos por Pedro Passos Coelho e por Cavaco Silva, então Presidente da República, a oposição clamou contra a sua presença em Portugal. Data desta visita os protestos do BE, que até fizeram cartazes a propósito, e a ideia do atual secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. o socialista Pedro Nuno Santos, de que o governo português era mais alemão do que o alemão. Houve ainda protestos na rua.

A ANÁLISE DE LEONÍDIO PAULO FERREIRA

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