Draghi não está preocupado com corte de 44% nas compras de dívida pública

Frankfurt mantém taxa de juro em mínimo histórico de 0%, o mesmo valor desde março do ano passado. Inflação prevista sobe "substancialmente", mas Draghi mantém tudo

O Banco Central Europeu (BCE) fez saber que reduziu as compras de dívida pública nacional aos bancos comerciais da zona euro em mais de 44% nos primeiros dois meses de 2017 face a igual período de 2016.

Ontem, em Frankfurt, confrontado com a possibilidade de escassez de obrigações do Tesouro (OT) portuguesas para comprar, o presidente do BCE garantiu que está tudo a correr conforme o previsto. "O nosso programa de compra de obrigações está a correr como esperado, seja em termos temporais seja em termos das quantidades compradas. Portanto, não temos razões para estarmos preocupados com isto neste momento", respondeu Mario Draghi na conferência de imprensa que se seguiu à reunião das taxas de juro. A questão era sobre o caso concreto de Portugal.

A forte redução de compras do BCE no período em causa afeta Portugal e outros países do euro, caso da Eslováquia, da Irlanda e da Lituânia. Mas, no caso português, a diminuição na procura tem contribuído de forma decisiva para a subida dos juros da República. Há um ano, em março de 2016, a taxa de juro média das OT a dez anos rondava os 2,8%; atualmente, está na casa dos 4%.

Draghi decidiu ontem manter as taxas de juro inalteradas nos mínimos históricos que perduram há exatamente 12 meses (um ano). A última mexida aconteceu em março de 2016, quando a autoridade monetária reduziu a taxa central de 0,05%. A taxa de juro de refinanciamento e as taxas de juro de cedência de liquidez e de facilidade de depósito "permanecerão inalteradas em 0%, 0,25% e -0,4%, respetivamente".

O conselho liderado por Mario Draghi "continua a esperar que as taxas de juro diretoras do BCE permaneçam nos níveis atuais ou em níveis inferiores durante um período alargado e muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos". Isto é, "muito para além" de "dezembro de 2017, ou até mais tarde".

No entanto, há pressões cada vez maiores para que o BCE comece a reduzir o fluxo de dinheiro barato para os bancos (o quantitative easing, que assenta sobretudo na compra de dívida pública aos bancos comerciais) o mais rapidamente possível.

É o caso de Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças da Alemanha, ou de Clemens Fuest, presidente do Ifo, o instituto de estudos económicos de Munique, que insistem que com estas políticas a inflação vai subir muito e estão contra esta ideia de o BCE andar a financiar indiretamente os países (governos), sobretudo os incumpridores e muito endividados, como Portugal, Grécia e Itália, com o dinheiro que é de todos. Ontem, Clemens Fuest pediu ao BCE uma redução nas compras de ativos de dez mil milhões de euros por mês já a partir de abril.

Mas o banco central mantém tudo o que disse até agora. O QE é para continuar, embora com uma certa moderação a partir de abril. "Continuaremos as aquisições ao abrigo do programa de compra de ativos ao atual ritmo mensal de 80 mil milhões de euros até final de março de 2017" e "a partir de abril de 2017 as compras líquidas de ativos prosseguirão a um ritmo mensal de 60 mil milhões até final de dezembro de 2017, ou até mais tarde, se necessário".

E avisa, uma vez mais, que, "se as perspetivas passarem a ser menos favoráveis ou se as condições financeiras deixarem de ser consistentes com uma evolução no sentido de um ajustamento sustentado da trajetória de inflação, o conselho do BCE está preparado para aumentar o volume e/ou a duração do programa".

Sem deflação, atento a salários

Embora mantenha a guarda, Draghi mostrou-se um pouco mais descontraído em relação à inflação demasiado baixa. "A urgência que era motivada pela existência de riscos de deflação já não está lá", declarou. "Já não há um sentido de urgência em tomar mais medidas", "os riscos de deflação desapareceram largamente". O BCE está preparado para tomar medidas, mas o nível de alerta baixou de forma evidente.

A inflação total, segundo o Eurostat, subiu para 2% em fevereiro, mas a subjacente [sem energia e alimentos] ficou-se pelos 0,9%.

Além disso, "ainda não vimos qualquer desenvolvimento significativo na frente salarial". Para Draghi, os aumentos salariais são o "elemento-chave, ainda que não o único" para o BCE poder afirmar que a inflação está num nível sustentável e duradouro. Como essas "pressões" salariais ainda não são salientes, está tranquilo.

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