Domar os poderosos do euro com dívida de 126% às costas

"Não é inocente" que Mário Centeno receba a liderança do clube do euro em França. Puxa Paris para sul, mais longe de Berlim

Mário Centeno, ministro das Finanças português, ganha hoje um chapéu novo: o de presidente do Eurogrupo, o conselho informal que agrega os 19 ministros da zona euro com a tutela das contas públicas. Centeno recebe o testemunho em Paris, a capital do novo e grande aliado de Portugal para a maior reforma que está por vir. A da zona euro.

Ser presidente do Eurogrupo, o que acontecerá às 11.00 de hoje, é um prémio por o país ter saído dos défices excessivos. É ainda um galardão para o próprio Centeno, o "Ronaldo do Ecofin", como lhe chamou o ex-ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, de direita; o "economista apaixonado" (porque empenhado nos debates), como diz Klaus Regling, alemão também, de centro-esquerda, e chefe do maior credor da República Portuguesa, o Mecanismo Europeu de Estabilidade - tem a haver mais de 26 mil milhões de euros em empréstimos.

E chefiar o Eurogrupo é um prémio para os portugueses, que durante os últimos anos foram os "bons alunos", mas traz responsabilidades acrescidas. Centeno tem o perfil certo para "mudar as posições da eurocracia", conceitos algo injustos, polémicos ou deslocados da realidade, como são o produto potencial e ajustamento estrutural, diz Miguel Cadilhe (ministro de um governo PSD). "É uma pessoa muito bem preparada neste domínio, julgo que poderá trazer um avanço intelectual à construção europeia", elogia o professor.

Centeno tem ainda as condições para gerir as muitas e peculiares sensibilidades que povoam a zona euro e a mesa do Eurogrupo. "Vem de um país do Sul e pobre", refere António Bagão Félix. "Dá-me esperança de que daí possa resultar um maior equilíbrio entre as naturais divergências e tensões que existem entre os países mais ricos e os outros, entre o Norte e o Sul", acrescente o antigo ministro das Finanças de um governo de coligação PSD-CDS.

Mas o exemplo vem de cima e o ministro português vai estar obrigado a mostrar que merece ser o líder do Eurogrupo. Vai tentar reformar o Pacto, tornando-o mais justo, mas em Portugal tem às costas uma dívida pública de 126% do produto interno bruto (PIB), a terceira maior da zona euro.

Chefiar o Eurogrupo é "ser capaz de gerir e de resistir a pressões internas" de certos "grupos sociais" que querem repor "salários e regalias", de "manter os resultados alcançados e consolidar este quadro de crescimento com maior estabilidade orçamental, de défices mais reduzidos e uma trajetória de redução da dívida que é fundamental para o país", acrescenta Teixeira dos Santos, ministro em dois governos do PS. "Ter Centeno neste novo lugar vai fazer bem às nossas finanças públicas. Penso que terá de ser ainda mais exigente e rigoroso, de procurar mais verdade orçamental", junta Cadilhe.

"Por mais indignação que sinta pela má governação do meu país, tenho empatia com ministros das Finanças nacionais e estrangeiros", começa por dizer Braga de Macedo (PSD). No entanto, parece ter pouca esperança de que Portugal mantenha ímpeto reformista e rédea curta na despesa, como que antecipando eventuais flexibilizações das regras a partir de Bruxelas. "Será Centeno capturado pela burocracia bruxelense fugindo da diferencialidade [um país que se diferencia pelas melhores práticas e políticas] como o diabo da cruz? Pode não ter tempo de fugir", escreve.

Eduardo Catroga (PSD), que fez uma parceria com Teixeira dos Santos para evitar o resgate de 2011 (sem sucesso), é mais benigno na visão que tem de Centeno. "Estou à espera de um ímpeto reformista que vise criar condições para um funcionamento mais eficiente da zona euro". "Centeno é a pessoa que vai coordenar este esforço, maximizando a capacidade de decisão e de concretização do Eurogrupo, espero."

A cerimónia de passagem de testemunho da presidência do Eurogrupo acontece hoje. Centeno reuniu-se ontem com o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro, Édouard Philippe. Numa situação atípica, Jeroen Dijsselbloem, o presidente cessante do Eurogrupo (holandês), aceitou ir ao encontro do português, em Paris, para lhe passar a pasta. Foi uma forma de poupar deslocações adicionais a Centeno.

Já empossado como líder do Eurogrupo, Centeno reúne-se à tarde com o homólogo francês, Bruno Le Maire.

Estes contactos com altos dirigentes franceses têm como objetivo acertar posições sobre os passos a dar da reforma da zona euro. A ideia é articular com os países maiores, os fundadores da Europa, as ideias.

Depois de França, o destino óbvio. Na semana que vem, Centeno vai a Berlim, Alemanha, com a reforma da zona euro na agenda.

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