Dívida de quem já tem créditos está a aumentar

Maioria dos que pagam a casa antes do prazo não pedem novo empréstimo, é quem já tem dívidas que está a endividar-se mais

Há cada vez mais pessoas a pagar a casa antes do prazo e a maior parte não pede um novo empréstimo ao banco. Quem está, então, por detrás dos novos créditos que estão a ser contraídos? Sobretudo devedores que não estão a fazer reembolsos antecipados e que por isso estão a aumentar o seu nível de dívida, alerta o Banco de Portugal.

A chegada da crise travou os reembolsos totais e antecipados dos empréstimos da casa e foi preciso esperar até finais de 2014 para que a tendência começasse a inverter-se. De tal forma que no ano passado atingiram-se valores máximos históricos. Traduzindo em números: 50% das amortizações registadas em 2017 foram antecipadas e visaram a totalidade do crédito, enquanto as amortizações regulares (que correspondem à mensalidade contratada) representam 40%.

Este movimento não passou despercebido e o Banco de Portugal, no Boletim Económico ontem divulgado, mostra que, ao contrário do que sucedeu no período que antecedeu a crise, desta vez estes reembolsos não são feitos por quem, a seguir, contrai novo empréstimo para mudar de casa.

Este perfil de comportamento acontece ao mesmo tempo que os novos empréstimos estão em rota de subida. "A maior parte dos novos empréstimos são concedidos a devedores que não efetuaram reembolsos totais antecipados de empréstimos à habitação nos seis meses anteriores", o que indica que "a maior parte" destes novos créditos "deverá estar a contribuir para um acréscimo significativo dos montantes de dívida na posse dos indivíduos que os contratam".

Tudo isto faz que se verifique "em simultâneo uma redução significativa do montante de dívida na posse de alguns particulares e um aumento significativo do montante de dívida na posse de outros". Mas a dinâmica dos reembolsos está a levar a que o saldo total dos crédito à habitação continue a reduzir, já que ultrapassa ritmo dos novos créditos.

Taxas de juro e mais-valias

O banco liderado por Carlos Costa acredita que uma parte dos reembolsos antecipados possa estar relacionada com o atual contexto de baixas taxas de juro, que fazem que seja pouco apelativo ter as poupanças estacionadas num depósito a prazo. Outra razão poderá estar associada ao atual dinamismo do mercado imobiliário - em que é fácil vender imóveis e realizar mais-valias. Prova disso é o facto de as transações de casas usadas terem registado um forte aumento desde 2009.

E são sobretudo as pessoas mais velhas que estão a ver-se livre dos empréstimos.

A evolução do crédito ao consumo, por seu lado, conta uma história diferente: o seu valor aumentou de "forma expressiva" em 2017, sendo necessário recuar a meados de 2006 para encontrar um montante que supere o observado em dezembro do ano passado. Além disso, este tipo de crédito está a ser contraído por um número crescente de novos devedores.

Alertas

Na análise à evolução da economia ao longo de 2017, o Banco de Portugal assinala a trajetória positiva dos vários indicadores, nomeadamente das exportações, do emprego e do desemprego e do investimento. Mas não deixa também de alertar para a necessidade de enfrentar alguns dos desafios que ainda se colocam, como a manutenção de um quadro macroeconómico estável e a aposta nas qualificações dos trabalhadores, num contexto em que se tem verificado que "a produtividade por trabalhador no conjunto da economia tem diminuído".

Despesa com a Educação cai

Portugal entrou em 2007 com um padrão de despesa primária (sem a fatura dos juros da dívida) semelhante ao da zona euro, apenas diferindo pelo maior peso dos gastos com a Educação.

Dez anos depois, o resultado da fotografia alterou-se de forma substancial, com os gastos com pensões a ganhar relevo (refletindo o envelhecimento da população) e com a Educação e a Saúde a perder peso.

Em 2007, as verbas para a Educação representavam 15% do total da despesa primária, mas em 2016 eram 12%. A descida, refere o Banco de Portugal, tem por detrás uma redução dos gastos com os salários e com os consumos intermédios tanto no ensino superior como nos ensinos básico e secundário. A Saúde também perdeu peso, caindo de 17% para 15%.

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