Diretor das secretas espanholas avisa: 5G vai afetar a cibersegurança

Félix Sanz Roldán assegura, no entanto, que a preparação tecnológica de Espanha vai superar os riscos da implementação da rede 5G.

"A nossa segurança vai sofrer ainda mais" com a implementação da rede 5G. O aviso é do diretor do Centro Nacional de Inteligência (CNI) de Espanha. Félix Sanz Roldán, citado pelo El País , disse esta quinta-feira que a chegada deste novo avanço tecnológico vai afetar a cibersegurança do país, mas garante que Espanha está preparada.

O diretor das secretas espanholas considera que o país está bem estruturado ao nível da segurança cibernética e elogiou a capacidade técnica e humana nesta área. "Estamos bem posicionados, temos a infraestrutura certa", afirmou durante a Feira Internacional de Defesa. Apesar de alertar para os riscos desta revolução tecnológica, o general Sanz Roldán defende que se deve saber beneficiar dela. Acredita que o trabalho dos especialistas em segurança não deve ser só implementar "portas de segurança", mas também "avançar no progresso com confiança, aproveitar-se dele e gerar confiança".

Estas declarações foram proferidas um dia depois de a Huawei confirmar que vai continuar a implementação da rede de telecomunicações 5G em Espanha, apesar do bloqueio comercial assinado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, à gigante tecnológica chinesa. Como justificação desta medida está o receio de roubo de informação por parte da China.

Em agosto do ano passado, Trump assinou o National Defense Authorization Act para o ano fiscal de 2019 no qual empresas tecnológicas da China, entre as quais a Huawei, foram consideradas como uma "ameaça à segurança nacional", tendo ficado proibido a aquisição por parte do governo federal de equipamentos dos fabricantes chineses visados.

Portugal pressionado pelos EUA para excluir a Huawei

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos começaram a pressionar os países aliados para impedir a escolha da Huawei como parceira na implementação da rede 5G. Portugal não escapou a esta campanha.

No final de fevereiro, Ajit Pai, presidente da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) esteve no nosso país para convencer as autoridades e empresas nacionais a excluir fabricantes chineses, como a Huawei, na infraestrutura 5G. Ao seu lado esteve o embaixador dos EUA em Portugal, George Glass.

"A América chama todos os nossos parceiros para que sejam vigilantes e rejeitem qualquer empresa que comprometa a integridade das suas comunicações ou os seus sistemas nacionais de segurança", disse, na altura, o embaixador.

Ajit Pai e George Glass estiveram em reuniões com membros do governo português e empresários nacionais onde foram explicadas as preocupações dos norte-americanos face à chegada do novo avanço tecnológico. Uma forma de pressão contra a parceria entre a Altice e a Huawei para a implementação no país da rede 5G, anunciada aquando da visita em dezembro a Portugal do presidente chinês, Xi Jinping.

Os alertas surgem na sequência da guerra comercial e de segurança entre os EUA e a China, que já implicou a detenção, em dezembro, da vice-presidente da Huawei, Meng Wanzhou, quando estava no Canadá, devido ao alegado envolvimento do gigante tecnológico chinês em pirataria comercial contra empresas dos Estados Unidos e a violação do embargo ao Irão.

Já este mês, o presidente dos EUA declarou "emergência nacional" nas telecomunicações, uma medida que impede as empresas norte-americanas de utilizarem equipamento eletrónico fabricado por empresas consideradas como sendo um risco para a segurança dos EUA.

A ordem executiva assinada por Trump visa "proteger a América de adversários externos que estão ativa e crescentemente a criar e a explorar vulnerabilidade nas infraestruturas e serviços tecnológicos de informação e comunicações", conforme diz o comunicado da Casa Branca. No fundo, com esta medida o presidente norte-americano pretende impedir que a tecnologia chinesa da Huawei entre em negócios para a construção de redes de internet móvel 5G.

Centro Nacional de Cibersegurança não isola Huawei nas preocupações

O Centro Nacional de Cibersegurança considera que são legitimas as preocupações face à implementação das redes móveis de quinta geração pela Huawei, mas afirma que "não são exclusivas desta tecnologia ou deste fornecedor".

A autoridade nacional entende que a implementação deste novo avanço tecnológico em Portugal deve estar sujeita a regras semelhantes ao Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) em relação à proteção dos cidadãos da União Europeia. "No fundo, sujeitar todo e qualquer prestador de serviços de fora da União a um regime jurídico que protege os valores da União em matéria de proteção de dados e cria uma fronteira digital em torno do espaço da União", referiu o Centro Nacional de Cibersegurança em resposta enviada ao DN.

Considera ainda que "as dúvidas e reservas recentemente levantadas sobre esta tecnologia, ou sobre um fornecedor em particular, são relevantes", mas recusa identificar a Huawei como uma ameaça maior, ao contrário do que tem sido a postura dos EUA.

Portugal apresenta estratégia nacional do 5G em setembro

A estratégia nacional para a rede móvel de quinta geração vai, no entanto, ser conhecida em setembro, conforme anunciou, ainda este mês, o secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, Alberto Souto de Miranda

O governante referiu que a tutela conta com a Altice para os "novos desafios" que se apresentam com a implementação de uma "nova geração móvel, com velocidades 100 vezes superiores, com latências 50 vezes inferiores e com a capacidade de conectar 100 vezes mais objetos".

Alberto Souto de Miranda explicou que está a realizar um 'périplo' pelo "país tecnológico, pelo país universitário e pelo país empresarial" para perceber o que é que preciso para a implementação da rede móvel 5G. O Governo, disse, quer criar um plano que corresponda "às necessidades do país, às expectativas dos operadores e às suas possibilidades".

Com Valentina Marcelino e Pedro Sousa Tavares

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