Dinheiro do BCE não chega às empresas portuguesas

Bancos dizem que quantitative easing do Banco Central Europeu "não está a ter impacto sobre a forma de financiamento nem sobre a concessão de empréstimos"

As empresas, sobretudo as de pequena e média dimensão (PME), têm revelado um crescente aumento na procura de crédito ao longo dos últimos trimestres, mas a oferta de empréstimos por parte dos bancos não responde, mostra o Banco de Portugal na avaliação trimestral à concessão de crédito.

Há mais de dois anos, desde o início de 2014, que o aperto no crédito se mantém: do lado da oferta, a opinião da banca sobre a capacidade de vender crédito ou piora ou estagna a cada trimestre; do lado das empresas, designadamente PME, os sinais de procura têm vindo a reforçar-se (ver gráfico).

O estudo do banco central recai sobre os cinco maiores grupos bancários ativos no país - CGD, BCP, Novo Banco, Santander Totta e Banco BPI.

As expectativas relativas ao segundo trimestre deste ano reforçam essa ideia e os dados já recolhidos e estabilizados referentes ao primeiro trimestre de 2016 indicam que a situação pouco se desanuviou face ao passado recente - algo que, aliás, está patente nas estatísticas oficiais da concessão de crédito bancário, que caem ou estão estagnadas em praticamente todos os segmentos, à exceção do ramo "consumo".

O crédito a empresas está a cair 3,6% em termos homólogos no segmento empresas, com o rácio de malparado a agravar-se até 16,2% em fevereiro. Ou seja, mesmo com as medidas extraordinárias do BCE e a retoma ligeira da economia, parece que a situação está longe de ser vibrante.

A contração estrutural do crédito em Portugal tem sido acompanhada por uma subida muito pronunciada dos níveis de delinquência (malparado, o crédito em incumprimento há mais de três meses), dificultando o arranque da economia, a viabilização e a expansão de muitos negócios, a criação de empregos.

A situação é grave. Tanto que nas últimas semanas emergiu a ideia de criar um banco mau ou um veículo que permita expurgar e gerir o malparado de modo a libertar os bancos para aquilo que é suposto fazerem: financiarem a atividade. Portugal juntou-se a países como Espanha e Itália, onde há uma experiência desse calibre. Comissão Europeia, FMI e OCDE incentivam iniciativas do género.

As condições de concessão de crédito continuam, pois, estabilizadas em baixa e poucos são os sinais de que tenha terminado a era da rarefação do financiamento. "No primeiro trimestre de 2016, os critérios de concessão de crédito permaneceram praticamente inalterados para todas as instituições." Para o segundo trimestre de 2016, os bancos inquiridos continuam "a não antecipar alterações nos critérios de concessão de crédito a empresas", apesar de haver sinais de maior procura. Nas grandes empresas saiu de território negativo; na PME o aumento no apetite já era notório e deve aumentar até final de junho, segundo o estudo. Os bancos não preveem acompanhar as empresas nesse processo.

Plano do BCE não surte efeito

Há algumas razões. Por exemplo, o programa de compra de ativos em larga escala do BCE (quantitative easing) não está a surtir efeitos. "Os resultados obtidos indicam que, nos últimos seis meses, o programa não alterou de forma significativa o valor dos ativos dos bancos, nem a sua posição global de liquidez"; todas as instituições, à exceção de uma, "referiram que a liquidez adicional (...) não teve impacto sobre a forma de financiamento, nem sobre a concessão de empréstimos". Apenas um banco disse ter melhorado a concessão de crédito às empresas.

Uma das instituições inquiridas revelou que "o programa levou a um aumento da detenção de obrigações soberanas". Ou seja, emprestou mais dinheiro, mas ao setor público.

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