Despesas com lares de idosos estão a aumentar dívidas das famílias

Número de famílias que pediram ajuda à Deco aumentou no primeiro trimestre. Desemprego e deterioração laboral explicam porquê. Mas, pela primeira vez, despesa com ascendentes é uma das causas para a subida das dívidas

Primeiro vem a casa e a mobília, porque quem casa assim o quer. Junta-se o carro, as férias no Algarve e o telemóvel topo de gama. Até que o cartão, que parecia infinito, é "não autorizado" e só sobram as dívidas. Foi o que aconteceu a Manuel, que deixou a corda esticar até aos seis créditos.

Casado e pai de uma universitária, deve 35 mil euros ao banco pelo crédito à habitação. A prestação mensal de 143 euros é a mais baixa que tem de pagar. A fatura mensal inclui ainda dois créditos pessoais e três cartões de crédito. Por mês, entram em casa de Manuel 1740 euros, um valor acima da média. No entanto, pouco sobra, já que quase 70% do orçamento da família é engolido pelas prestações. Manuel é nome fictício mas as dívidas que acumulou são reais. Foi um dos 7400 portugueses que, entre janeiro e março, pediram ajuda ao Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado (GAS) da Deco.

O número de pessoas com a corda do crédito na garganta aumentou ligeiramente em relação a 2017, segundo os dados revelados pela Deco ao DN/Dinheiro Vivo (ver infografia). E o número de pessoas ajudadas pela Defesa do Consumidor também subiu, de 630 para 642. "É o aspeto mais positivo deste primeiro balanço, ainda que não haja razão para euforias. Significa que entre as famílias que pediram ajuda há mais agregados com capacidade para reestruturar a sua situação financeira", explica Natália Nunes, coordenadora do GAS.

Habituada a lidar com casos extremos, a responsável da Deco lamenta que a tendência não tenha desaparecido com a crise. "Ainda há dias chegou-nos o processo de um agregado com 14 créditos", conta Natália Nunes. Mas são os vestígios dela, da crise financeira que chegou a atirar a taxa de esforço dos endividados para os 98%, que estão a traçar novos padrões no mapa dos sobre-endividados. A começar pelo desemprego.

Era e ainda é o indicador que mais pesa na altura de pedir a ajuda dos especialistas para gerir as dívidas, mas diminuiu de 32% para 24%. Ao mesmo tempo, continuam a aumentar os casos de pessoas que batem à porta da Deco devido a "negócios e investimentos malsucedidos". "É uma causa que surgiu com a crise e que tem origem em situações de desemprego. Foram pessoas que resolveram criar o seu posto de trabalho e que tiveram experiências menos positivas. Só neste trimestre foram 6%", sublinha Natália Nunes.

Mas se houve quem tentasse dar a volta ao desemprego com um negócio próprio, houve outros que nunca chegaram a sair de lá e que não tiveram alternativa senão pedir de volta o "crédito" concedido durante décadas à Segurança Social. "A passagem à reforma entrou na lista de motivos do sobre-endividamento, com 4%, e está ligada também com a questão do desemprego. São pessoas com alguma idade que ficaram sem trabalho e acabaram por entrar na reforma, sofrendo grandes penalizações. E quando se passa à reforma há sempre uma grande diminuição de rendimentos".

A prova está noutra entrada direta no top 10 das razões para um endividado pedir ajuda à Deco. Há pelo menos 370 famílias que não conseguem suportar os custos com a ajuda a familiares mais velhos. "O apoio a ascendentes já pesa 5% nas causas de sobre-endividamento. Tem que ver como o facto de os filhos terem de suportar o pagamento dos lares e equipamentos semelhantes dos progenitores quando o valor das reformas não é suficiente."

Juntando a passagem à reforma com o apoio a ascendentes, foram quase 600 os agregados familiares que nos primeiros três meses de 2018 foram obrigados a pedir ajuda por dívidas relacionadas com reformas baixas.

E apesar de os números da economia gritarem o contrário, as perspetivas não são as melhores. "Acredito que muitas famílias já têm uma situação financeira melhor. Mas a verdade é que o número de agregados que nos pedem ajuda não tem diminuído. Olhando para a situação dos primeiros três meses, a perceção que temos é que a situação das famílias não se tem agravado, mas também não há melhorias significativas."

O caso de Manuel, o pai num agregado de três elementos, já não é ilustrativo da realidade dos endividados em Portugal. A maior parte dos pedidos de ajuda à Deco, 44%, parte agora de pessoas solteiras, divorciadas ou viúvas. Um dado que ajuda a explicar por que motivo num ano o rendimento médio das famílias baixou de 1200 euros para 1050 euros.

Cada família que pede ajuda contraiu em média cinco créditos e tem uma taxa de esforço de 70%, bem menos do que em 2013, em plena troika, quando a taxa de esforço chegou a 98%, segundo os dados da associação que defende os consumidores. Mas contas feitas, depois de pagar os créditos e as despesas básicas, chega ao fim do mês com um saldo negativo de 163 euros. Há mais mês no fim do salário.

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