Corrida na Bolsa de Nova Iorque cria primeiro "milmilionário" da Ferrari

Fabricante italiana de automóveis de luxo chega a uma das maiores praças financeiras de todo o mundo

A Ferrari vai entrar, já na próxima semana, numa nova corrida. Desta vez corre em Nova Iorque, mas fora das pistas. É em plena Wall Street que a marca italiana já aquece os motores. Ao alinhar na pole position da Bolsa, a marca de Maranello cria o seu primeiro "milmilionário", com uma fortuna de mais de mil milhões de dólares: Piero Lardi Ferrari.

Piero Lardi é o único filho vivo do lendário Enzo Ferrari. Fruto de uma relação extramatrimonial com Lina Lardi, só aos 33 anos é que foi reconhecido como membro da família, após a morte de Laura Garello, a primeira mulher do criador do cavalinho rampante. Piero trabalha na empresa desde 1966. Começou por supervisionar a produção dos carros de produção e passou, depois, para o departamento de competição.

Atualmente com 70 anos, Piero vai acumular uma fortuna superior de 1,3 mil milhões de dólares (1,14 mil milhões de euros) com a ida da Ferrari para a Bolsa. Em maio de 2013, a reestruturação determinada pelo maior acionista (Fiat-Chrysler) rendeu-lhe 280 milhões de dólares. Agora, o vice-presidente da marca italiana juntará, pelo menos, mais 906,8 milhões de dólares à sua fortuna com a entrada na Wall Street. Piero tem 10% do capital e, face à forte procura de ações, espera-se uma valorização da companhia.

A entrada na Bolsa de Nova Iorque está marcada para quarta-feira e bem se pode dizer que será a primeira corrida de sempre de Piero. Literalmente, porque a Ferrari vai usar o ticker RACE nos monitores de uma das maiores praças financeiras de todo o mundo. O segundo filho de Enzo, ironia do destino, nunca foi autorizado pelo pai a sentar-se num carro de corrida para "evitar tentações".

Marca de carros ou de luxo?

A chegada da Ferrari à Bolsa levanta uma questão: deve ser avaliada como uma marca de automóveis, à semelhança da Volkswagen, ou como uma marca de luxo, como a Prada? O construtor italiano é conhecido pelos automóveis de luxo. Em Portugal, por exemplo, são necessários 660 salários mínimos para comprar o Ferrari mais barato, o FF, que custa 333 379,93 euros.

A Ferrari é vista pelo mercado como uma "fabricante de bens de luxo", segundo o fundador da Brand Finance, David Haigh. "Há muito poucas marcas que conseguem converter-se em verdadeiras marcas de luxo global", acrescenta, citado pelo El País. Este tipo de empresas beneficia de uma valorização em Bolsa acima da média.

O valor da marca, considerado um ativo intangível, também é outro aspeto crucial para o sucesso da Ferrari no mercado de capitais. Mais até do que as perspetivas de crescimento da própria construtora no negócio de vendas de carros, em que existe uma restrição de produção à volta dos sete mil veículos todos os anos. O que valoriza a importância de ter um Ferrari, na perspetiva da própria marca.

A fabricante, ainda assim, admite aumentar gradualmente este limite em 30% para as nove mil unidades por ano até 2019, correspondendo à cada vez maior procura nos mercados emergentes, especialmente na China.

Separação da Fiat a dois tempos

A entrada da Ferrari na Bolsa de Nova Iorque foi determinada no final de outubro de 2014 pela administração da Fiat Chrysler (FCA). Chegou a estar prevista para o segundo trimestre deste ano, mas foi adiada para a segunda quinzena de outubro. Esta operação faz parte de um plano de financiamento de 48 mil milhões de euros para a expansão internacional de marcas deste grupo, como a Jeep, Alfa Romeo e Maserati.

Na primeira fase da operação, serão colocados 10% do capital da FCA na Ferrari na Bolsa de Nova Iorque, que deverá descer para os 80% após a conclusão da primeira parte do spinoff.

Numa segunda fase, que está agendada para janeiro de 2016, a posição da FCA na marca de luxo italiana será dispersa pelos seus acionistas. A família Agnelli, através da holding Exor, é a maior acionista da FCA, com mais de 29% das ações. Mas a Exor, que conta com António Horta Osório como um dos administradores não-executivos, deverá deter 36% dos direitos de voto. Posição que, em conjunto com os cerca de 15% de Piero Ferrari, permite que o cavalinho rampante não saia de mãos transalpinas tão depressa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.