Altice compra Media Capital: "Não estamos aqui a fazer política"

O presidente executivo do grupo recusou comentar as críticas do primeiro-ministro, mas deixou recados.

O presidente executivo (CEO) da Altice, Michel Combes, afirmou hoje que a compra da Media Capital representa "um forte projeto industrial" para o país e rejeitou comentar as declarações do primeiro-ministro, que na quarta-feira foi bastante crítico quanto à evolução da PT nas mãos da Altice.

O grupo anunciou hoje a compra da Media Capital à Prisa por 440 milhões de euros, numa altura em que enfrenta, além da apreensão de António Costa, o descontentamento dos trabalhadores da PT/MEO. Apesar disso, Michel Combes, disse hoje em conferência de imprensa que o grupo está "entusiasmado" com o negócio.

Questionado sobre se espera oposição política ao negócio, Michel Combes afirmou: "Não estamos aqui a fazer política, este é um forte projeto industrial para o país".

O presidente do grupo que detém a PT Portugal, comprada há dois anos, escusou-se a comentar as declarações que o primeiro-ministro, António Costa, fez sobre a operadora de telecomunicações na passada quarta-feira. No entanto, o líder do grupo, Patrick Drahi, encontra-se hoje com o chefe de Governo e também com o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa nesta vinda a Lisboa.

Na conferência de imprensa, confrontado também com as declarações de Costa sobre o comportamento das operadoras de telecomunicações durante o período de combate às chamas em Pedrógão Grande, Michel Combes mostrou-se tranquilo.

"Os funcionários da empresa (...) estiveram muito empenhados, fizeram tudo o que era exequível para que funcionasse", garantiu, afirmando que a empresa tem "os melhores profissionais", que "estão a fazer um trabalho fantástico". "Neste tipo de circunstância, como podem imaginar, nem sempre é fácil, o tráfego explode", disse.

Na quarta-feira, no debate do Estado da nação, o primeiro-ministro António Costa manifestou-se muito apreensivo com a evolução da PT nas mãos da Altice.

"Receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização [pelo anterior Governo PSD/CDS-PP] possa dar origem a um novo caso Cimpor, com um novo desmembramento que ponha não só em causa os postos de trabalho, como o futuro da empresa", declarou o primeiro-ministro.

António Costa fez depois referência ao que se passou em termos de comportamento das operadoras de telecomunicações durante o período de combate às chamas no incêndio ocorrido em junho passado em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria.

"Aliás, espero que a autoridade reguladora [para as telecomunicações, olhe com atenção só o que aconteceu com as diferentes operadoras nestes incêndios de Pedrógão Grande. Compreenderá certamente que houve algumas que conseguiram sempre manter as comunicações e houve outra que esteve muito tempo sem conseguir comunicações nenhumas - e isso é muito grave", salientou ainda o líder do executivo.

Depois, António Costa disse que, pessoalmente, enquanto consumidor de telecomunicações, já tirou conclusões face ao panorama existente no mercado nacional.

"Por mim, já fiz a minha escolha da companhia que utilizo", disse, numa nova alusão crítica à PT.

O líder social-democrata, Pedro Passos Coelho, criticou na quinta-feira à noite o primeiro-ministro por ter feito uma "admoestação pública" à empresa Altice durante o debate sobre o estado da Nação no parlamento.

Nunca, julgo eu, tinha ouvido um primeiro-ministro atirar-se assim publicamente a uma empresa. Acho que nem o engenheiro Sócrates teve coragem para fazer isto e, atualmente, o primeiro-ministro sente-se com à vontade de poder admoestar publicamente uma empresa privada", criticou Passos Coelho.

A líder do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, por seu lado, acusou quinta-feira à noite, em Coimbra, a empresa Altice de fraude e de tentativa de dobrar a lei para despedir 3.000 trabalhadores.

"O Governo disse, e bem, que a empresa não podia despedir utilizando a figura do despedimento coletivo, mas a Altice quer despedir os mesmos trabalhadores utilizando os mais variados subterfúgios legais", denunciou a dirigente bloquista.

De acordo com uma nota da Altice enviada à Lusa, a compra da Media Capital, por 440 milhões de euros, faz parte da estratégia global do grupo, que se manifesta disposto a oferecer mais conteúdos aos consumidores, apostando em produções e formatos locais.

"A integridade e independência editorial da Media Capital servirão de princípio norteador para os negócios de média da Altice", refere a nota.

Num comunicado enviado à Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (CMVM), a MEO, detida pela Altice, explica que o objeto da Oferta Pública de Aquisição (OPA) é constituído pela totalidade das 84.513.180 ações, com o valor nominal de 1,06 euros.

A MEO explica, ainda no comunicado, que a decisão surgiu "na sequência da celebração, no dia 13 de julho de 2017, após o encerramento do mercado em Portugal, de um contrato de compra e venda de ações com a Promotora de Informaciones, S.A. ("PRISA"), para a aquisição de ações representativas de 100% do capital social da Vertix, SGPS, S.A. ("Vertix"), que é titular de ações representativas de 94,69% dos direitos de voto do Grupo Media Capital, SGPS, S.A".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.