Cinco impactos do Brexit em Portugal

Saída do Reino Unido da União Europeia vai penalizar exportações e turismo. Mas num cenário de hard Brexit, Portugal não é dos mais afetados.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem defendido que ninguém sairá a ganhar com o Brexit. Portugal será também um dos países afetados. Poderá sofrer impactos negativos no crescimento, nas exportações e mesmo nos custos de financiamento da República. No entanto, apesar dos riscos do Brexit, a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) defende que poderão existir oportunidades.

"Com o Brexit o Reino Unido terá mais dificuldades em importar e exportar de e para outros países da União Europeia", diz a CIP. E acrescenta que Portugal pode substituir outros países no relacionamento com o mercado Reino Unido no pós-Brexit, assumindo-se como um parceiro privilegiado daquela região".

Economia portuguesa pode perder até 0,4%

Um estudo feito pelo FMI este ano, e citado num relatório recente da CIP, refere que Irlanda, Holanda e Bélgica serão os mais afetados no crescimento. Mas Portugal também não escapa. "Considerando o cenário de acordo de comércio bilateral entre o Reino Unido e a União Europeia após o Brexit, Portugal seria o sexto país da UE mais afetado (redução da produção de cerca de 0,2%", refere o estudo. Num cenário "de uma relação com base nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), Portugal seria o 12.º país mais afetado (redução da produção de 0,4%".

Exportações arriscam descer até 26%

O Reino Unido é o quarto maior mercado das exportações portuguesas. Mas as vendas para esse destino poderiam ser afetadas pela queda da libra e pelo risco de maiores barreiras comerciais após o Brexit. Um estudo da CIP, divulgado no final de outubro, referia que as exportações para o Reino Unido poderiam descer 15% no cenário mais otimista. Caso o país saia da UE sem acordo, as perdas potenciais arriscam chegar aos 26%.

As regiões e os produtos mais afetados

As regiões do Alto Minho, Cávado, Ave e Tâmega e Sousa são "as mais expostas aos efeitos nocivos decorrentes do Brexit", considera a CIP. Isto porque produzem bens que estão mais dependentes das compras dos britânicos. Os setores mais afetados serão o dos produtos informáticos, eletrónicos e óticos; equipamentos elétricos e o setor dos veículos automóveis.

Ameaça ao turismo

A desvalorização da libra e as perspetivas de quebra da economia do Reino Unido vai tirar poder de compra aos britânicos. E isso é uma ameaça para o turismo em Portugal. A CIP realçou que" a larga maioria dos turistas europeus que chegaram a Portugal em 2016 eram ingleses, representando 21% dos hóspedes e 28% das dormidas em estabelecimentos hoteleiros, tendo crescido a um ritmo médio anual desde 2010 de cerca de 10%/ano em ambos os casos". A confederação avisa que a "quebra do poder de compra dos ingleses é por isso, uma ameaça dado o impacto na dinâmica turística nacional que tem beneficiado a economia portuguesa". E aponta Lisboa, Algarve e Madeira como as zonas que serão mais afetadas.

A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, realçou este mês, citada pela Lusa, que "existem alguns pontos de interrogação por parte dos operadores turísticos do Reino Unido com a incerteza e as consequências do Brexit. Isso pode gerar algum adiamento das reservas por parte dos britânicos enquanto não souberem a situação, o que vai acontecer e o impacto que pode ter na desvalorização da libra".

Impactos no financiamento da economia

A presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, Cristina Casalinho, reconheceu esta semana que o Brexit pode resultar em custos de financiamento mais elevados para os países europeus. Citada pela Reuters, referiu que "o Brexit irá tornar o financiamento dos soberanos mais caro".

Já a CIP, apesar de realçar que a ligação da banca portuguesa e do setor financeiro ao Reino Unido poder ser aproveitada no quadro de um relacionamento futuro mais próximo de Portugal, "pode ser fator de fragilidade adicional". Especialmente "no quadro de um processo mais radical, em que a situação do setor financeiro português resulte fragilizada, prejudicando as condições de financiamento das empresas e, por essa via, influenciando a sua capacidade de internacionalização".

Com Maria Caetano

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