Carlos Ghosn. A queda do franco-brasileiro da Renault que dá emprego a meio milhão

Detido em Tóquio por suspeitas de ocultação de rendimentos, o empresário foi o responsável pela transformação da Renault e da Nissan numa aliança líder de vendas a nível mundial e na transição da indústria automóvel para o elétrico. A Nissan já informou que propôs a saída do executivo da presidência da empresa japonesa.

Carlos Ghosn, administrador executivo da aliança Renault-Nissan e presidente dos conselhos de administração da Nissan e da Mitsubishi, era a pedra angular de um grupo feito de equilíbrios. Para respeitar as particularidades culturais, o empresário combinava formas de liderança empresarial distintas, enquanto partilhava as capacidades industriais das empresas para alcançar economias de escala semelhantes a um grupo único.

Líder do construtor francês desde 2005, Ghosn conquistou a confiança dos acionistas pela força dos resultados obtidos tanto na fabricante francesa quanto mais tarde na Nissan, o parceiro japonês. A aliança Renault-Nissan, ampliada em 2016 para a Mitsubishi, tornou-se no número um em vendas no ano passado, com 10,6 milhões de carros vendidos.

O gigante industrial franco-japonês emprega 470 mil funcionários e tem 122 fábricas em todo o mundo a trabalhar para dez marcas, entre as quais Dacia, Lada, Samsung Motors, Alpine ou Datsun.

Impulso elétrico

Sob a iniciativa de Ghosn, o grupo foi o primeiro a investir em força nos veículos elétricos, área na qual é líder mundial. Após anos de menosprezo, e ao ver o mercado a crescer, a concorrência acabou por se juntar à transformação da indústria no sentido de acabar com os motores de combustão.

"Um líder é em primeiro lugar alguém que traz desempenho", dizia este empresário nascido há 64 anos no estado brasileiro da Rondónia.

De família de origem libanesa, Carlos Ghosn cedo se mudou do interior do Brasil para o Rio de Janeiro e daí para Beirute, onde frequentou uma escola jesuíta. Os estudos liceais e a formação superior (em engenharia de minas) foram obtidos em Paris.

Iniciou a carreira na Michelin e em quase duas décadas subiu na hierarquia quase até ao topo (tendo trabalhado no Brasil e nos EUA). Em 1996, foi recrutado para a Renault pelo patrão Louis Schweitzer, que viu nele o seu sucessor.

Se os seus próximos elogiam o carisma e a capacidade de ouvir, Ghosn descreve-se como um workaholic, particularmente de manhã. Na sede da Renault, em Boulogne-Billancourt, perto de Paris, era costume chegar às 7.30 "depois de já ter trabalhado algumas horas".

Herói da BD

Apelidado de cost killer (assassino de custos), especializou-se em transformar empresas em dificuldades financeiras em muito lucrativas. Tinha como desafio a integração da Mitsubishi Motors, que esteve envolvida num escândalo de fraude. Ghosn tinha uma excelente imagem no Japão, onde se tornou um herói do mangá (banda desenhada japonesa), em resultado de ter dado nova vida à Nissan.

Já em França, recorda a AFP, foi por vezes acusado de favorecer os interesses japoneses ou de fazer uma administração eminentemente financeira. As críticas desvaneceram-se a partir do momento em que a Renault voltou a criar empregos no país.

As relações com o Estado francês, que detém mais de 20% dos direitos de voto da Renault, nem sempre foram as mais pacíficas. Em 2016, a assembleia geral da Renault havia rejeitado a remuneração de 7,25 milhões de euros obtida no ano anterior.

No entanto, as relações normalizaram-se durante o atual governo, que apoiou um novo mandato na liderança do grupo em junho passado, em troca de uma redução de 30% do seu salário e a nomeação de um número dois, Thierry Bolloré, que deverá ser o seu sucessor.

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