Brexit arrisca tirar 5% às bolsas. Libra com maior queda do ano

Os analistas do Deutsche Bank alertam que caso o parlamento britânico não aprove o acordo do Brexit, as bolsas europeias podem perder 5%.

Os investidores deram sinais de nervosismo com a crise política que se seguiu ao anúncio de um acordo preliminar para a saída da União Europeia. O governo britânico sofreu baixas de peso e a continuidade de Theresa May no cargo de primeira-ministra está posta em causa devido à oposição de deputados do seu próprio partido aos termos do acordo feito com Bruxelas.

Apesar do entendimento entre o governo do Reino Unido e a União Europeia poder ser uma notícia positiva para os mercados, os receios regressaram em força devido à incerteza sobre se o acordo será aprovado pelo parlamento britânico. A libra tem a maior queda do ano face ao dólar.

A divisa britânica chegou a descer 1,8% para 1,2751 dólares. "Qualquer volte-face que aparente aumentar o risco de eleições irá aumentar ainda mais a vulnerabilidade da libra", disse Jave Foley, analista do Rabobank, citada pela Reuters. A especialista antevê que "nos próximos dias a libra continue vulnerável devido às perspetivas bem reais de um hard Brexit".

E o cenário de que a saída do Reino Unido da União Europeia seja feita de forma desordenada ganhou força devido à fragilidade política de Theresa May. "Se o parlamento do Reino Unido não apoiar o acordo então - e na ausência de desenvolvimentos adicionais - a UE e o Reino Unido estão direcionados para um não acordo", explicou Colin Ellis, chief credit officer da Moody"s.

O responsável da agência de notação financeira alerta, numa nota a que o Dinheiro vivo teve acesso, que "está longe de ser certo que uma maioria de deputados vote a favor do acordo, o que teria consequências significativamente negativas para muitos emitentes". Além da libra essa incerteza está também a pressionar a bolsa britânica. As ações britânicas descem mais de 0,70%. Apesar das empresas que beneficiam com a libra baixa estarem a valorizar, o índice dos bancos desce mais de 2,5%. O Royal Bank of Scotland afunda mais de 8%.

Brexit desordenado pode custar 5% às bolsas europeias

A cautela dos investidores sobre o Brexit também não ajuda as outras bolsas europeias. O índice que agrupa as 600 maiores cotadas do Velho Continente, o Stoxx 600, desce quase 1,70%. "O apetite pelo risco sofreu em toda a linha, já que esta dor de cabeça chega numa altura em Itália sobe o tom na disputa com Bruxelas e em que os investidores receiam que o grande boom nos resultados das tecnológicas tenha chegado ao fim", disse Chris Beauchamp, analista-chefe da IG, citado pela Reuters.

Apesar do caos político que se vive em Londres, o Deutsche Bank referiu, num relatório a que o Dinheiro Vivo teve acesso, que considera como cenário base que o acordo para a saída, o chamado soft Brexit, seja aprovado à justa no parlamento britânico. Mas os especialistas do banco alemão não excluem o risco da saída desordenada, o hard Brexit. E avisam que "a maior incerteza política resultante desse cenário e de um crescimento mais baixo reduziriam as nossas estimativas para o Stoxx 600 em 5%".

Um estudo deste ano feito pelo Comité da Câmara dos Comuns do parlamento britânico estimava que o PIB do Reino Unido baixasse 1,6% num cenário de soft Brexit e 7,7% caso não se efetive um acordo. Já uma outra análise do Fundo Monetário Internacional, feita também este ano, previa um impacto negativo de 1,5% na economia europeia. Irlanda, Holanda e Bélgica seriam os países mais afetados.

Leia mais em Dinheiro Vivo a sua marca de economia

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.