BCE entre a cautela e o fim do programa de compras de dívida

A reunião desta semana era vista como a ocasião ideal para o BCE anunciar que o programa de compras vai terminar. Mas a crise em Itália veio baralhar as contas

O Banco Central Europeu (BCE) já não tem muito tempo para explicar como vai acabar com o programa de compra de ativos, a arma que utilizou para tirar a zona euro da crise. A reunião de hoje era vista pelos economistas como a oportunidade ideal para fazer esse anúncio. Mas a crise em Itália e a desaceleração de alguns indicadores económicos podem levar Mario Draghi a querer evitar anunciar a morte do programa para evitar uma reação negativa dos mercados financeiros.

A autoridade monetária comprometeu-se a comprar 30 mil milhões de euros em ativos até final de setembro e tem adiado o momento para anunciar o que irá acontecer depois dessa data. O processo de retirada dos apoios à economia tem sido gerido com pinças. Mas apesar desses cuidados, nas últimas semanas a incerteza política em Itália e a chegada ao poder de uma coligação eurocética levaram as taxas de juro a subir no sul da Europa.

A instabilidade nos mercados de dívida levou os economistas a apontar a hipótese de o BCE ser forçado a manter o programa de compras por mais tempo e a ter de empurrar para ainda mais tarde o início da subida de juros (estão em mínimos históricos com a taxa de depósito em -0,40% e a principal taxa de refinanciamento em 0%). Isso levou também os investidores a refrear as expectativas sobre quando a Euribor regressaria a valores positivos.

Mas Peter Praet, economista chefe do BCE, veio centrar as expectativas do mercado. Disse, num discurso, que na reunião desta quinta-feira "o Conselho de Governadores terá de avaliar se o progresso até agora foi suficiente para uma retirada gradual das compras líquidas". Essas palavras foram interpretadas como um sinal de que as compras que apoiaram a economia da zona euro irão mesmo terminar neste ano e que as taxas de juro vão começar a subir a partir do segundo semestre do próximo ano.

Uma questão de timing

As declarações de Praet, que tende a ser um defensor de medidas de política monetária mais suaves, indicam que o BCE está a preparar o fim da era das compras de dívida para, algum tempo depois, começar a subir as taxas de juro. A dúvida entre os bancos de investimento é se o anúncio oficial do fim do programa acontecerá já hoje ou apenas na reunião de julho.

Os economistas do Morgan Stanley dizem, numa nota a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, que esperam cautela de Draghi "por causa da desaceleração do crescimento, a recente imposição de tarifas por parte dos EUA e a incerteza sobre a situação em Itália". Já os especialistas da Capital Economics argumentam que as declarações de Praet e os sinais da inflação indicam que Draghi oficialize já a decisão: "Apesar das preocupações sobre o novo governo de Itália, suspeitamos que o BCE anuncie que irá terminar com o programa de compras neste ano", defendem.

Em maio, com os juros italianos sob pressão, o banco central diminuiu as compras de dívida em Itália. A autoridade monetária foi alvo de críticas por parte da coligação eurocética que formou governo em Roma, que argumentou que era uma forma de pressionar o novo governo. "Draghi poderá avisar o novo governo em Itália de que o apoio do BCE não é garantido", consideram os economistas da Capital Economics.

O anúncio do fim do programa seria uma oficialização de que o BCE deixaria de estar em modo de emergência e que depois da crise de dívida iria começar a normalizar as medidas de política monetária. Isso levará a uma subida dos juros, o que afeta quem tenha crédito com taxa variável. No Relatório de Estabilidade Financeira, o Banco de Portugal indica que a subida dos juros deverá ocorrer de "forma gradual e num quadro de recuperação da atividade económica", o que limitaria os impactos desse aumento. Ainda assim, reconhece que "existe um número significativo de agentes económicos vulneráveis a um aumento futuro", o que levou o supervisor a emitir recomendações para os bancos serem mais criteriosos na hora de emprestar.

Fed volta a subir juros

Um dia antes da decisão do Banco Central Europeu, a Reserva Federal dos EUA (Fed) fez mais uma subida das taxas de juro. A instituição liderada por Jerome Powell aumentou o intervalo dos juros em 25 pontos-base para entre 1,75% e 2%. Foi a segunda subida neste ano, num processo de normalização das taxas que começou no final de 2015. Desde essa data já subiu os juros sete vezes, por considerar que a economia e o mercado de trabalho apresentam dados sólidos. Caso esses indicadores assim continuem, a Fed poderá fazer mais duas subidas de juros até final do ano.

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