BCE anuncia fim das compras. Mas juros baixos são para manter

A era das compras de dívida está a chegar ao fim. Mas a dos juros negativos ainda está para durar. O Banco Central Europeu (BCE) indicou ontem que o programa de compras de ativos, que segurou a zona euro durante a crise, termina no final do ano. Mas, numa decisão inédita, abriu o jogo sobre a data a partir da qual poderá subir os juros.

A garantia do presidente do banco central, Mario Draghi, é de que pelo menos até ao verão de 2019 a taxa de referência vai continuar em 0% e o juro a que os bancos depositam dinheiro no BCE irá ficar em - 0,40%. São estas taxas do banco central que influenciam o valor das Euribor, que ditam o preço dos créditos a taxa variável.

O BCE espera que "as taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais, pelo menos até ao final do verão de 2019, e, em qualquer caso, enquanto for necessário para assegurar que a evolução da inflação permanece alinhada com as atuais expectativas de uma trajetória de ajustamento sustentada".

Os economistas notam que os investidores estavam preparados para a notícia de que o programa de compras terminaria este ano. Mas realçam que o compromisso de juros baixos por mais tempo foi uma surpresa. "Os mercados estavam a contar que a primeira subida de juros ocorresse em junho de 2019 e, assim, a orientação do BCE altera as expectativas", comentaram os economistas RBC Capital Markets. Os especialistas do banco notam, num relatório, que a decisão já levou a descidas no valor dos futuros sobre a Euribor. A queda na cotação destes contratos é um indício de que a subida destas taxas poderá ser também mais lenta do que o esperado, o que continuará a ser um alívio para quem tem crédito a taxa variável.

Primeira subida em setembro

A maior parte dos analistas estima agora que a primeira subida de juros do BCE ocorra só no outono do próximo ano. "Uma subida de taxas antes de setembro de 2019 parece ser muito improvável", dizem os economistas do banco ING.

Frederik Ducrozet, economista da Pictet, traça o calendário. "Continuamos confortáveis com a nossa estimativa de uma primeira subida de 15 pontos base [0,15 pontos percentuais] na taxa de depósito em setembro de 2019, seguida de subidas de 25 pontos base em todas as taxas em dezembro", indicou numa nota a investidores.

A expectativa de que os juros continuem em mínimos por mais tempo foi também reforçada pela defesa que Mario Draghi fez sobre os juros baixos. O presidente do BCE defendeu que as taxas mínimas permitiram a recuperação da economia, o que beneficiou "toda a gente". Rejeitou a ideia de que essa política tenha prejudicado quem queira poupar e os bancos.

Compras acabam em dezembro

O BCE espera que manter os juros em mínimos por mais tempo seja o suficiente para continuar a apoiar a economia, já que o programa de compras de dívida tem os dias contados. O banco central vai continuar a comprar 30 mil milhões em ativos por mês até final de setembro. Depois disso vai reduzir o ritmo para metade e terminar as compras no final de dezembro, caso a inflação siga o caminho pretendido.

Mas Draghi faz depender esse calendário da evolução da economia. O líder do banco central disse que existiam ameaças para a economia vindas de um maior protecionismo e notou que existe o risco de volatilidade persistente nos mercados financeiros. Nas projeções económicas, os economistas do BCE reviram ligeiramente em baixa as estimativas para o crescimento. Mas aumentaram as previsões de longo prazo para a inflação para níveis perto do objetivo do BCE, que é de perto mas abaixo de 2%.

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