Bancos ficam com a fatia de leão do investimento direto estrangeiro

Investimento estrangeiro subiu quase 7% no primeiro semestre deste ano, mais 7,2 mil milhões de euros em apenas um ano. Setor financeiro e seguros captaram 4,7 mil milhões, mas indústria transformadora perdeu 510 milhões

O setor financeiro e de seguros está a ficar com a fatia de leão do investimento direto estrangeiro (IDE) que entra em Portugal. A esmagadora maioria destes fundos estrangeiros nem sequer é novo capital, vem antes sob a forma de mais dívida, de mais empréstimos. Do lado oposto está a indústria transformadora, que está a perder investimento estrangeiro.

De acordo com o Banco de Portugal, o stock de investimento estrangeiro captado pela economia portuguesa subiu 7,6 mil milhões de euros entre o final do primeiro semestre de 2016 e igual período deste ano, um aumento de 6,9%, que reforça a aceleração que se verifica desde meados do ano passado.

A maior parte do dinheiro está a ir para a banca, reflexo de duas grandes operações que aconteceram na primeira metade deste ano: a entrada de novos acionistas no BPI e no BCP. Só para se ter uma ideia da escala, o stock de IDE que teve como alvo o setor financeiro e de seguros subiu 4,7 mil milhões de euros, um salto de 11%.

Outros campeões foram as atividades de consultoria, científicas, técnicas, que captaram mais 815 milhões de euros (7%) e a construção, que obteve mais 409 milhões de euros (mais 14%). As atividades imobiliárias (compra, venda e arrendamento de casas, terrenos e espaços comerciais) acumularam 5% face ao final do primeiro semestre de 2016, mais 303 milhões.

Mas há quem esteja a perder. A indústria transformadora acusou ma quebra de 6% no stock de IDE que lhe está associado, menos 510 milhões de euros. Há uma grande quebra no investimento alemão, apesar de alguns dos projetos já anunciados (ver fotolegenda).

A banca é, historicamente, o setor que mais IDE tem acumulado em Portugal. O Banco de Portugal dava conta de um stock superior a 48,3 mil milhões de euros, contabilizado em final de junho de 2017.

A entrada de novos investidores no mercado bancário português, que se viu em dificuldades por causa dos elevados níveis de crédito malparado herdados dos anos da crise e de más práticas de gestão no passado, explica bem o que está a suceder. Por exemplo, no início deste ano, os espanhóis do CaixaBank compraram 568,3 milhões de ações do BPI no âmbito da OPA (oferta pública de aquisição), o que significou um investimento 664,8 milhões de euros. Ficaram com mais de 84% do banco.

Mais recentemente, os chineses da Fosun aplicaram 374 milhões de euros no reforço da participação que já tinham no BCP, passando esta de 16,7% para 23,9%, no âmbito do aumento de capital do banco liderado por Nuno Amado. Entretanto, o grupo chinês terá comprado mais ações pelo que a sua posição no BCP já deverá ir nos 25%.

Tudo isto reflete-se sobremaneira nos dados do IDE. É assim nos stocks (que refletem posições passadas, valores acumulados), mas é também assim nos fluxos, que indicam o rumo do novo IDE. Este ano, até final de junho, a balança financeira da economia dá conta de um fluxo positivo que já vai em quase 4,5 mil milhões de euros em investimento estrangeiro.

O Banco de Portugal mostra que a entrada de fundos em sede de "títulos de participação no capital" continua a dominar, mas mostra também que no primeiro semestre houve 1,2 mil milhões de euros registados como IDE mas na modalidade "instrumentos de dívida". É financiamento para olear negócios já controlados por estrangeiros.

Um gestor de topo de um grande banco a operar em Portugal explicou ao DN/Dinheiro Vivo que este dinheiro é importante para ajudar a recompor a dívida (alisar eventuais picos de amortizações) e baixar custos do setor com juros, em alguns casos ainda em níveis elevados, heranças do passado.

Os dados do banco central mostram ainda uma evolução mais favorável ao nível das Special Purpose Entities (SPE), veículos ligados à vertente não produtiva do IDE. Em Portugal, esse stock ainda é relativamente elevado, com 12,1 mil milhões de euros a entrarem no país através desses fundos. O valor caiu ligeiramente (0,5%) face ao primeiro semestre de 2016.

A OCDE explica que "as SPE são entidades com pouca ou nenhuma presença física ou emprego no país de acolhimento, mas que prestam serviços importantes às multinacionais sob a forma de financiamento ou de detenção de ativos [ações, por exemplo] e passivos [dívidas]". "Se excluído o investimento em SPE residentes, os países têm uma melhor medida do IDE que entra e, provavelmente, terá um impacto real na sua economia."

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