Assis e Feio não acreditam que manifesto possa trazer mudança

Eurodeputado socialista lembra que a consolidação da banca está a acontecer em toda a Europa. Ex-representante do CDS em Estrasburgo preferia aposta nos investidores nacionais

Francisco Assis, Eurodeputado pelo PS

Demonizar Espanha é perigoso e é pouco correto

O manifesto contra a espanholização da banca pode dar força e argumentos ao Presidente e ao governo para enfrentarem Bruxelas e Frankfurt?

Não tenho simpatia por fazer a política da lamúria - o documento faz aquilo em que os portugueses são ótimos, que é a lamúria coletiva. Sinceramente não acredito que o manifesto tenha consequências práticas. Haverá uns encontros com o Presidente, com o governo, mas não tem potencial para alterar nada.

Concorda com a atuação do BCE relativamente à banca nacional?

A banca está a reorganizar-se em toda a Europa, há um movimento de concentração, opção que tem sido feita para robustecer o sistema financeiro. Na Península Ibérica, isso tem significado um reforço da banca espanhola porque a nossa estrutura financeira é trágica. A questão é a excessiva dependência de capitais de um país. Mas nós não temos grupos económicos com estrutura e capacidade para se dedicar à atividade financeira e manter esse centro de decisão nacional. À luz europeia, dos compromissos e das regras que existem, não vejo grande alternativa às soluções encontradas. É preferível encontrar capitais externos ao espaço político europeu?

A consolidação ibérica faz sentido? Tem riscos?

Pode comportar riscos, mas a realidade é o que é - e demonizar Espanha é perigoso, não é correto. De resto, qual é a alternativa aos espanhóis? Atrair capitais de outros países? Isso pode ser equacionado, mas não vislumbro grande alternativa. No que devíamos apostar era no reforço do papel da Caixa Geral de Depósitos como um banco público forte com um papel decisivo na defesa das empresas portuguesas. Concordo com a preocupação do governo em travar essa batalha a nível europeu.

Seria mais vantajoso, ainda que tendo de adiar a venda, manter o Novo Banco com capitais portugueses, ou é mais importante que o banco saia das mãos do Estado para evitar mais custos para os contribuintes?

Não deve haver pressas. Se o Estado entender que as condições não são boas, é preferível esperar - a precipitação não é boa conselheira.

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Diogo Feio, Ex-eurodeputado pelo CDS-PP:

Sou contra espanholizar, francizar, alemanhizar a banca

O manifesto contra a espanholização da banca pode dar força e argumentos ao Presidente e ao governo para enfrentarem Bruxelas e Frankfurt?

Os manifestos não são feitos para dar força em tomadas de posição. Eu sou contra a espanholização da banca, como sou contra a alemanhização ou a francização. Uma certeza tenho: a posição do Presidente da República tem sido bastante avisada e de coragem. Não vejo nada de negativo no facto de o Presidente falar com investidores ou tentar conciliar posições e procurar soluções melhores para a banca.

Concorda com a atuação do BCE relativamente à banca nacional?

Quando as posições são de supervisão, de acordo com as novas regras de supervisão europeias, são positivas. É nesse âmbito que o Banco Central Europeu deve atuar - e ficar por aí, não deve ir além do que está previsto nas normas europeias.

A consolidação ibérica faz sentido? Tem riscos?

Não se pode ir contra a natureza das coisas... mas também não se pode ver estas questões como tendo apenas dois caminhos: virar para África ou para Espanha. Se olhar para a maioria dos Estados mais relevantes, e até os de natureza média, há na banca desses países grande preponderância de investidores nacionais (espanhóis, franceses...). A banca não é um elemento indiferente: há um conjunto de decisões de apoio à economia que são tomadas pelos bancos. Gostaria que houvesse, dentro da nossa economia, um movimento que levasse a que um grupo de investidores portugueses assumisse um papel de maior preponderância no setor financeiro.

Seria mais vantajoso, ainda que tendo de adiar a venda, manter o Novo Banco com capitais portugueses, ou é mais importante que o banco saia das mãos do Estado para evitar mais custos para os contribuintes?

Essencial é que o processo de venda do Novo Banco corra bem e que se consiga encontrar novos investidores para o banco. Estão a ser feitos os esforços necessários para encontrar uma solução.