Chineses garantem que Mexia ficará à frente da EDP

China Three Gorges assinou em 2011 a compra de 21,35% da EDP

China Three Gorges garante que o presidente executivo, reconduzido com 99,7% dos votos em abril, se mantém líder se a OPA à EDP for bem-sucedida. Preço, Bruxelas e Trump são obstáculos que a estatal chinesa tem de ultrapassar

Mesmo que fique totalmente em mãos chinesas, a EDP não terá um novo líder. A China Three Gorges (CTG) afasta o cenário de mudança que chegou a ser traçado, segundo o qual António Mexia estaria de saída da maior elétrica portuguesa. "Os órgãos sociais da EDP foram aprovados na última assembleia geral, realizada em abril, para os próximos três anos, pelo que não está em cima da mesa qualquer alteração aos órgãos sociais", disse ao DN/Dinheiro Vivo fonte oficial da CTG.

Nos últimos dias, foram traçados cenários que indicavam que Mexia poderia não completar o atual (quinto) mandato. Ao DN/Dinheiro Vivo, fontes próximas do gestor afirmaram que este teria garantido um pacote confortável para se retirar com honra da liderança do grupo. "Há um acordo de cavalheiros" e "o António deverá querer, como qualquer gestor, deixar assegurado um sucessor", disse fonte próxima. As razões apontadas para a possível alteração na administração eram divergentes, mas várias fontes referiam que a liderança do gestor na elétrica estaria a chegar ao fim. Algumas apontavam que a China Three Gorges há muito queria a saída, outras reforçavam que o gestor não caíra nas boas graças do Estado chinês - que controla a CTG - devido a situações envolvendo a estatal chinesa State Grid, principal acionista da REN, que gere as redes energéticas em Portugal. A isto acrescia o facto de ser arguido no caso das rendas pagas pelo Estado à EDP.

A verdade é que há apenas um mês António Mexia, que lidera a EDP desde 2005 (tendo antes sido brevemente ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e líder da Galp), foi reconduzido no cargo com uma esmagadora maioria de 99,7% dos votos.

Fontes próximas do gestor salientam, ainda assim, que algumas das suas qualidades deixariam de ser necessárias num cenário pós-OPA, sendo a principal a facilidade em lidar com diferentes acionistas - incluindo norte-americanos. "A EDP vai ser uma empresa diferente e vai precisar de um líder com outro perfil."

Mas mesmo que viesse a acontecer, a saída de António Mexia nunca aconteceria no curto prazo. "A OPA ainda vai demorar muitos meses. Requer a aprovação de várias entidades de mais de meia dúzia de países e a Comissão Europeia e a Casa Branca" têm ainda uma palavra, sublinha uma fonte. "E há ainda a possibilidade de surgirem ofertas concorrentes, o que irá prolongar todo o processo", disse outra fonte.

OPA defensiva

A CTG anunciou na sexta-feira a intenção de lançar uma OPA sobre a EDP e a EDP Renováveis. Ou seja, uma empresa que foi privatizada voltará, se a operação tiver sucesso, a ser uma empresa estatal. Mas, em vez de portuguesa, será chinesa.

O movimento é visto sobretudo como defensivo e um aviso, nomeadamente a potenciais interessados em comprar a EDP, como a Gás Natural e a Engie. Para analistas, a Comissão Europeia e a administração americana de Donald Trump serão os principais entraves à operação sobre a elétrica nacional nos moldes atuais. A China Three Gorges poderá ter de assumir compromissos, como a venda de ativos. Um dos pontos que podem causar atrito é o facto de a EDP passar a ser detida pelo mesmo acionista que controla também a REN - o Estado chinês.

Na União Europeia, o esforço tem sido o de desagregar a propriedade das redes retalhista e grossista. Outro ponto contra é o preço. Segundo a Bloomberg, a administração da EDP deverá recomendar o chumbo da OPA devido ao preço baixo. "Se houvesse um prémio de 20% face à última cotação, os acionistas não estariam numa má posição", diz ao DN/Dinheiro Vivo Andrew Moulder, analista da CreditSights. O facto de a CTG fazer uma oferta em dinheiro é uma vantagem, mas ainda há tempo para novas ofertas de concorrentes. "Esperaria, caso haja outra oferta, que provavelmente seria de um comprador do setor."

A este poderão juntar-se fundos americanos interessados nessa contra-OPA, conforme já tinha avançado o Dinheiro Vivo no sábado. É caso para dizer que a procissão ainda vai no adro.

CMVM investiga insider trading

A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários está a analisar a hipótese de ter havido negociação de ações da EDP ou da EDP Renováveis com base em informações prévias sobre a OPA, que seria anunciada pela China Three Gorges. Fonte oficial do regulador afirma que o procedimento "segue a norma", mas o certo é a notícia desta oferta saiu antes no site do Expresso. Só na noite de sexta-feira foi publicado o anúncio no site da CMVM. As ações da EDP fecharam a subir 0,75% no dia 11, sexta-feira, depois de terem estado a cair 2,8% durante a sessão.

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