Compra da Media Capital. "Temos financiamento disponível para executar a transação amanhã "

Segunda parte da entrevista com o CEO da Altice Portugal trata assuntos como a falha do SIRESP, a dívida do grupo e o serviço universal da rede fixa

Rosália Amorim (DV) e Anselmo Crespo (TSF)
© ANDRÉ KOSTERS / LUSA

A compra da Media Capital tem sido um dos dossiês quentes em cima da mesa de Alexandre Fonseca, CEO da Altice Portugal há apenas três meses. Mas há outros assuntos igualmente escaldantes, como os incêndios e a falha da rede SIRESP, a que se junta a dívida do grupo Altice, o serviço universal da rede fixa e a TDT. Temas para a segunda parte da conversa, numa longa entrevista cuja primeira parte foi publicada na passada quarta-feira.

Decorre uma investigação aprofundada da autoridade da Concorrência à aquisição da Media Capital pela Altice. Está confiante de que o negócio vai mesmo avançar?

Estou profundamente convencido de que o negócio irá avançar. Mas não é apenas uma convicção, é algo que acredito que é fundamental para o país...

O que pode impedir o negócio?

Estando a decorrer uma investigação aprofundada, o que pode impedir é uma decisão da própria Autoridade da Concorrência... Estas decisões são vinculativas. Não são vinculativos os pareceres de outras entidades. Pode ser vinculativa per se e pode indicar caminhos que têm de ser ou não seguidos pelas entidades envolvidas na transação. Estamos convictos no trabalho e na capacidade de decisão, no conhecimento e na sensibilidade para avaliar o negócio. Do nosso lado temos colaborado com a Autoridade da Concorrência, estamos a responder ponto a ponto a todas as preocupações levantadas, mas mais do que a vontade temos a capacidade. Hoje, como reafirmamos recentemente, temos o financiamento disponível para executar a transação amanhã. Temos vontade e capacidade para fechar um negócio assim. Para nós é extremamente importante este negócio e a nossa convicção decorre do facto de acharmos que é um negócio que faz todo o sentido. Faz sentido porque temos um projeto para esta área em Portugal que, aliás, não é único. É um erro pensar-se que seria um projeto pioneiro, porque na Europa e nos EUA temos assistido a imensos projetos de consolidação entre o mundo das telecomunicações e dos media, muitos deles de sucesso. Temos casos como a da Telefonica em Espanha, da Liberty Global...

Faz sentido independentemente dos remédios ou há uma fronteira a partir da qual o negócio deixa de ter sentido?

Tem de existir algo que não possa beliscar os princípios económicos e financeiros da transação. Quando as pessoas associam remédios, associam imediatamente a uma componente de informação, até porque há aqui um lapso de língua, a Altice não tem um processo de aquisição a correr sobre a TVI, tem sobre a Media Capital. Obviamente que vamos garantir a independência, a pluralidade, a diversidade da informação, porque isso é apanágio nas outras operações do grupo em que já temos serviços informativos. Temos canais noticiosos e informativos em Israel, em França, nos EUA... esta seria a quarta operação. Basta olhar para o nosso historial, em que já o fazemos e de forma independente. O principal jornal conotado com a esquerda em França, o Libération, pertence ao grupo Altice. É algo natural na nossa atividade. Além disso, há o tema dos conteúdos e temos um projeto industrial para essa área. Acreditamos que Portugal tem condições técnicas, humanas e climáticas para ser um hub de produção de conteúdos para a Europa, para os PALOP e para o Brasil. Este é um projeto de juntar um negócio que tem capacidade de investimento, que é o das telecomunicações, a um negócio que sabemos que tem estado sob pressão do ponto de vista financeiro e que é o setor dos media. Juntarmos dois mundos que têm proximidades e que podem combater os grandes players mundiais que estão a entrar na área dos conteúdos através da tecnologia e que beneficiam de isenção de regulação para poderem crescer e criar monopólios na sua presença no mercado dos conteúdos.

Não têm fundamento os que mostram receios de que se esta aquisição avançar haja um desinvestimento na informação. Se a Altice comprar a Media Capital isso não vai acontecer nem a informação vai deixar de ser independente?

Deixar de ser independente nem sequer se coloca e obviamente nem faz sentido porque não podemos, num mercado como o português, dar-nos ao luxo de ter um canal como a TVI que deixe de ter independência e pluralidade... isso é algo que nem a sociedade iria aceitar. E os reguladores continuarão cá para regular. Existe um órgão que garante diversidade, pluralidade e independência.

Não desinvestem na informação para apostar mais nos conteúdos?

Não desinvestimos por um motivo, porque apesar de termos uma aposta nos conteúdos, temos os canais i24, canais de origem israelita presentes em todo o mundo Altice, que funcionam 24 horas em serviços noticiosos em três línguas (francês, inglês e árabe), temos os canais BFM em França de origem noticiosa, temos canais noticiosos nos EUA. A componente de informação é aquela em que temos maior experiência na pluralidade das geografias. Temos também um fortíssimo componente de conteúdos em Israel. Acreditamos que Portugal tem condições para se juntar a este panorama de desenvolvimento e produção de conteúdos independentes em língua portuguesa e não só, porque uma grande versatilidade dos portugueses é o seu domínio de idiomas, e acreditamos que Portugal pode produzir conteúdos com custos aceitáveis para várias geografias.

A Altice vai manter todas as marcas que existem na Media Capital?

Não vou comentar aquilo que é um ambiente que não controlamos, que não é nosso, nem vou dar pistas para aquilo que será a nossa atuação sobre um grupo que não nos pertence.

A Altice tem ou não um prazo definido para concretizar este negócio? A data de 13 de abril é real?

A Altice não tem uma data, existe um acordo, como nestas coisas tem de existir. Existe um contrato estabelecido entre a parte vendedora e a parte compradora e esse acordo tem uma data que é 13 de abril, uma data em que as partes terão de se juntar e terão de decidir sobre a continuidade ou não do interesse mútuo da realização do negócio. Portanto essa data é real, já veio a público, mas também veio a público a nossa posição de dizermos que essa data é extremamente importante para nós. Poderemos no entanto ter - não depende só do grupo Altice, depende também da Prisa, grupo vendedor - eventualmente a disponibilidade para prolongar por algum tempo, curto, essa data, e não é por aí com certeza que o negócio deixará de se viabilizar...

Quando diz curto, quer concretizar?

Curto quer dizer que um negócio que já leva nove meses com certeza não poderá continuar nesta fase de indecisão por mais meses.

Quando se define uma data não se está a tentar pressionar o regulador?

Esta data foi definida há nove meses, quando o negócio foi consubstanciado. Eu diria que colocar uma data de fecho de negócio com nove ou dez meses de antecedência não me parece pressão, parece-me apenas razoabilidade. É verdade que o negócio demorou mais tempo a ser analisado pelas diversas entidades do que aquilo que seria, no nosso entendimento, estimável, não vou aqui dizer se é razoável ou não, mas, pelo menos nós, nunca tínhamos visto nenhum negócio desta dimensão a ser analisado durante nove, dez meses. Portanto, entendemos que o 13 de abril seria uma data amplamente alcançável, infelizmente chegámos a esta circunstância neste momento.

Alguns observadores têm referido algum esmorecimento por parte da Altice na compra da Media Capital. Esse esmorecimento tem razão de existir? Dá razão aos observadores?

Não, se calhar esses observadores, talvez menos atentos, confundem esmorecimento com respeito. Nós respeitamos a posição daquilo que é a Autoridade da Concorrência, respeitamos todas as entidades que estão envolvidas e não nos pomos, como outros têm feito em detrimento do negócio, em bicos de pés para tentar influenciar a decisão. Limitamo--nos a colaborar, é verdade que tem havido muitas outras entidades que têm, essas sim, vindo a público criar pressão, talvez porque essas entidades dominam hoje universos económicos que fecham o ciclo completamente em áreas de conteúdos, telecomunicações, retalho, mesmo setor farmacêutico etc., e nessa perspetiva essas entidades têm vindo a criar formas de pressão. Nós não o fazemos.

Quer dar nome às entidades?

Não, não vale a pena porque o mercado português é suficientemente pequeno para nós nos reconhecermos uns aos outros. Agora eu diria que acima de tudo não há qualquer esmorecimento.

Têm surgido notícias que dão conta de que a Altice não tem sido célere na forma como vai dando respostas à Autoridade da Concorrência, nem proativa a arranjar soluções para os problemas de concorrência que vão surgindo no processo. É verdade?

Não, não é verdade de todo. Aliás, não sou só eu que o digo, há poucos dias estive reunido com um conjunto de pessoas que estão envolvidas, que têm estado a colaborar com a Autoridade da Concorrência e que puderam atestar de forma comprovada aquilo que tem sido o nosso posicionamento, as nossas respostas rápidas, objetivas, concretas e até, nalguns casos, proativas. Não nos limitamos a responder, em alguns casos somos os primeiros a dar o passo e a tentar mostrar a solução para uma eventual preocupação. E portanto isso não corresponde minimamente à verdade.

Porquê a Media Capital e não outra empresa de comunicação e de conteúdos?

Bem, eu trabalho com o grupo Altice há quase sete anos, sou, com muito orgulho, um dos membros mais antigos do grupo, mas não sou acionista nem posso responder pelo grupo Altice. Essa pergunta tem de ser feita ao grupo, porque foi o grupo Altice que decidiu avançar para a aquisição...

Mas ponderaram outras empresas?

Ponderámos desde o início trazer aquilo que faz parte do nosso triângulo estratégico de desenvolvimento do grupo. Juntar a convergência entre a componente telecomunicações, de media e digital advertising. Este sim, é o nosso objetivo, juntar media e conteúdos, advertising e telecomunicações, é este triângulo. O grupo Media Capital insere-se neste triângulo.

Não o surpreenderá se um movimento semelhante amanhã for feito por um concorrente seu?

Enquanto gestor já não me surpreendo com nada. Limito-me a gerir a organização que lidero com base em factos. É algo que não me tira o sono minimamente. Temos capacidade financeira para o fazer, não sei se outros o terão.

A Altice oferece 440 milhões à Prisa. Esse valor depende das decisões de investimento que a Media Capital tome até o negócio estar fechado?

Não posso, na fase em que estamos do processo, comentar detalhes da transação. É público e por isso refere o número dos 440 milhões. Não vou entrar em detalhes da transação.

Falando agora de contas, o grupo Altice tem 50 mil milhões de euros de dívida. É sustentável financeiramente?

Claro que sim, é sustentável por um motivo muito simples. Muitas vezes temos tendência a olhar apenas para a ponta do icebergue. De facto é verdade que existe um endividamento, que é público. Somos uma empresa cotada em bolsa. Agora é preciso olhar um bocadinho para baixo daquilo que está subjacente a este número. 85% da dívida está indexada a taxas fixas negociadas no down turn (na curva descendente das taxas de juro) e que têm maturidades nos próximos quatro, seis, oito ou dez anos, portanto 85% não vão oscilar com o mercado. E os primeiros compromissos para a reposição dessa dívida ocorrem, a esmagadora maioria ou os mais relevantes, daqui a seis anos. Com o nível de rentabilidade que o grupo tem apresentado, não é algo que nos tire minimamente o sono, estamos tranquilos, o grupo é sustentável e a nossa saúde financeira não está nas prioridades.

Os investidores é que parecem não dormir tão descansados porque nos últimos meses a Altice tem registado quedas significativas em bolsa. Há uma preocupação crescente por parte dos investidores?

Repare, os investidores têm de ter essa preocupação. Temos de estar a olhar para aquilo que é o nosso investimento e o retorno que ele transmite, e é normal que os investidores estejam preocupados. Porquê? Porque efetivamente, quando apresentámos os resultados do terceiro trimestre de 2017, esses resultados ficaram aquém da expectativa e foi por isso que também nós, fruto daquilo que é a génese do ponto de vista de gestão do grupo - com dois acionistas, o senhor Patrick Drahi e o senhor Armando Pereira, muito próximos da gestão operacional - tomámos imediatamente medidas. Quando digo que não nos tira o sono, tira-nos o sono a perspetiva de garantirmos o crescimento sustentado do grupo. Isso sim, é uma preocupação que temos, como temos de ter sempre em qualquer empresa mesmo numa empresa saudável e em crescimento como é caso do grupo Altice. Agora a questão do nível de endividamento é é algo que não nos tira o sono, são coisas completamente distintas. Endividamento é um tema para nós que não existe, é uma ferramenta a que todas as empresas recorrem e que temos perfeitamente controlado.

Muitas empresas crescem através da expansão internacional. Foi notícia, por várias vezes, a intenção da Telefonica comprar a PT. Com a ambição da Altice, pode o feitiço virar-se contra o feiticeiro e ser a Altice a comprar a Telefonica?

Tive oportunidade de lhe dizer que trabalho com o grupo Altice desde 2011, grupo que hoje fatura 25 mil milhões de euros. Aprendi com este grupo que não há nada que não seja possível de encaixar na nossa ambição e nos nossos sonhos e portanto diria...

Incluindo comprar a Telefonica?

... incluindo crescer. O crescimento orgânico nestas áreas é um crescimento que já conhecemos e sabemos o que é possível. É um setor maduro, um setor que a nível europeu e a nível global já não tem grande capacidade de expansão do ponto de vista orgânico. As empresas que são sustentáveis fazem esse mesmo crescimento através de uma componente de M&A (fusão & aquisições), é normal que assim seja, e o grupo Altice tem a capacidade de o fazer e foi assim que cresceu. Não estou a dizer que há planos ou que deixa de haver, isso não é um tema para a Altice Portugal, isso é um tema do grupo Altice. O que quero dizer é que não podemos continuar na Europa a ter a pulverização de operadores que temos.

O Bloco de Esquerda tem vindo a pedir o resgate por parte do Estado das redes de comunicações geridas pela Altice. Se isto acontecesse, que consequências é que teria?

Teria como principal consequência sermos o único país do mundo que faria uma nacionalização de uma rede de comunicações. Se calhar é esse eventualmente o vetor número um que essas entidades que fazem essas afirmações têm, é talvez publicitar Portugal pelos piores motivos. Se calhar por falta de alguma experiência empresarial das pessoas que fazem esse tipo de observações. Tenho algumas dúvidas de que o Estado seja a melhor entidade e com mais capacidade para fazer este dispêndio de centenas de milhões de euros para fazer investimentos desta grandeza. Recordo que a Altice Portugal investiu nos últimos três anos em Portugal 1200 milhões de euros, boa parte destinados exatamente às redes que alguns agora querem nacionalizar. Isto é algo que tem de ser contrabalançado com afirmações populistas ou demagógicas, como nacionalizações de peças fundamentais da economia nacional que, recordo, é um setor que vale cinco mil milhões de euros do PIB...

Segundo um relatório da Anacom de 29 de janeiro de 2018 sobre os preços das telecomunicações em Portugal no em 2017, o nosso país era o segundo da UE com os preços mais caros nas telecomunicações. Desde janeiro de 2014 que os preços das telecomunicações crescem acima da inflação. O que justifica isto?

Não podemos olhar só para o preço, temos de olhar para aquilo que se chama o valor do produto. Quando vou comprar um conjunto de coisas ao supermercado posso gastar dez, 20 ou 50 euros e trazer o mesmo tipo de produtos, mas não trago a mesma coisa para casa. Temos de perceber qual é o nível de sofisticação do mercado nacional e não tenho dúvidas de que é dos mais sofisticado a nível global. Temos de perceber qual é a composição desse serviço, por exemplo hoje falamos de ter serviços sem fidelização. Quando colocamos uma instalação em casa de um cliente para pagar 30 euros por mês, o cliente se calhar esquece-se daquilo que é o valor do que lhe estamos a pôr em casa. Temos de pensar na rentabilidade deste setor, que vale 4,7 mil milhões de euros em termos do PIB, não nos podemos esquecer de que este mesmo setor há três ou quatro anos valia mais de sete mil milhões de euros.

O serviço universal de rede fixa continua a fazer sentido?

Temos de olhar para a realidade mais do que para o conceito. O nosso regulador veio dizer em novembro que este serviço já não tinha uma procura material, que era irrelevante. Mas não deixa de ser o mesmo regulador que vem exigir à Altice Portugal que, como penso que já ficou claro que não é detentora da concessão do serviço universal de rede fixa, reponha as redes porque é considerado crítico e fundamental para as populações este serviço. Parece-me haver aqui alguma incongruência de afirmações e eu diria que temos de ter algum cuidado. Esta é a primeira perspetiva. Segunda perspetiva, queiramos ou não - aqui vou substituir-me ao meu colega da NOS, mas penso que se estivesse no lugar dele teria a mesma opinião -, existe um contrato [com a NOS] e, nestas coisas, podemos não gostar, podemos chegar a casa e arrepender-nos. Existe um contrato entre o Estado e um operador. Os contratos existem para ser cumpridos, ou para ser rescindidos, mas de mútuo acordo.

Mas acha que pode resultar na recomendação para fim de contrato?

É público que a Anacom recomenda que seja terminado o serviço universal de comunicações fixas. Aliás, foi dito já publicamente pelo senhor regulador que os próprios serviços universais, como um todo, deixam de fazer sentido e isto expande-se, no limite, a questões como o serviço universal de postes públicos, vulgo cabinas telefónicas, esse sim, detido pela Altice Portugal. Sabemos que hoje as cabinas telefónicas estão presentes em escolas, nos hospitais, em estabelecimentos prisionais e que servem uma franja da população que ainda é importante. Portanto, diria que, acima de tudo, temos de ter algum cuidado com a leveza de algumas afirmações.