Mulher de sobrinho-bisneto de Gulbenkian acusada de usar o nome em fraude

Angela Gulbenkian, uma corretora de arte, ficou com os bens congelados depois de ser acusada de fraude na venda de uma escultura por 1,2 milhões

Elisabete Tavares
Angela é mulher de um sobrinho bisneto de Calouste Gulbenkien, imortalizado na escultura frente ao edifício da fundação com o seu nome, em Lisboa© Arquivo Global Imagens

Uma corretora de arte e esposa do sobrinho bisneto de Calouste Gulbenkian está a ser acusada de fraude, na venda de uma escultura por 1,2 milhões de euros, que nunca foi entregue ao comprador.

Angela Gulbenkian é suspeita de, alegadamente, usar o nome do magnata para iludir clientes nos negócios em que é intermediária, noticiou a Bloomberg.

Mathieu Ticolat, um consultor de arte baseado em Hong Kong, comprou a Angela uma escultura escultura de Yayoi Kusama. Mas a peça de arte - uma famosa escultura de abóbora -, nunca chegou.

O consultor de arte esteve meses a tentar resolver a situação e chegou a fazer ameaças até que decidiu avançar com um processo, pedindo o congelamento dos bens de Angela, o que foi confirmado pelo juíz do caso que corre na justiça inglesa.

"Fui enganado pelo nome", disse o queixoso.

Angela afirmou ao comprador que era representante de um vendedor anónimo. Foram feitas duas transferências em abril e maio de 2017 para a conta da corretora no HSBC em Londres.

Mas a escultura foi vendida a outra pessoa no final de 2017. Contudo, Angela continuou a afirmar que estava a tentar obtê-la para Ticolat, segundo documentos no processo.

À Bloomberg, a corretora de arte disse estar surpreendida com o processo e ofereceu-se para conseguir que o vendedor entre a escultura antes do julgamento.

O caso acaba por mostrar como funciona o mercado de arte a nível mundial, que vale 55 mil milhões de euros, no qual muitas pessoas não fazem a menor ideia com quem estão a negociar, ou pelo menos quais as ligações da pessoa.

"As pessoas estão a comprar arte cara e não pesquisam sobre quem são os vendedores", disse Christopher Marinello, presidente executivo da Art Recovery Internacional, uma empresa especializada em casos de recuperação de arte e que está a assessorar o queixoso no processo contra Angela.

Gulbenkian é um nome associado a arte, cultura e riqueza. O nome de Calouste Gulbenkian continua bem vivo através da fundação privada de 3,6 mil milhões de euros, cuja sede é em Lisboa, e no seu museu.

Por isso, não é de estranhar que Angela Gulbenkian, tenha mergulhado no milionário mundo de arte europeu. Tem sido intermediária em negócios de milhões e tem sido fotografada em eventos ao lado de artistas famosos.

Natural de Munique, na Alemanha, Angela Maria Ischwang casou com Duarte Gulbenkian, agente da Federação Internacional de Futebol (FIFA) e dono da LXG Sports, depois de se ter mudado para Londres em 2000, e passou a usar o nome.

Os documentos que deram entrada na Justiça, bem como entrevistas a pessoas conhecidas de Gulbenkian, indicam que muitos acreditavam que Angela estava ligada às duas instituições portugueses que têm Gulbenkian no nome. Só que tal não é o caso.

"Angela Gulbenkian é uma colecionadora de arte muito respeitada", disse Astrid-Caroline Cole, uma vendedora de arte em Londres. Afirma que vendeu várias peças de arte a Angela. "Ela tem um museu e uma fundação em Portugal", afirmou. E sugeriu ao jornalista da Bloomberg: "faz Google aos museus Gulbenkian!"

Mas a Fundação Calouste Gulbenkian, que gere o Museu, afirma que não existe qualquer ligação com a corretora de arte. "Angela Gulbenkian não tem qualquer relação com a Fundação e, pelo que sabemos, é casada com um membro da família Gulbenkian que não é descendente direto do nosso fundador ", afirmou Elisabete Caramelo, porta-voz da Fundação.

Numa entrevista ao Jornal de Negócios, em 2017, a corretora de arte afirmava que tinha vários projetos para Lisboa mas que não queria ter um cargo na Fundação nem interferir na gestão diária da mesma. "Não quero criar conflitos. Estou aqui pelo amor à arte", disse na altura. Também o marido, não pretendia interferir com a Fundação.

A viver em Lisboa, Angela afirmou nessa entrevista, que teve lugar nos jardins da Fundação, que imaginava ali esculturas em forma de abóbora de Kusuma.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo