Simone de Oliveira: "Gostava de ter sido homem, porque os homens podem fazer tudo"

Simone de Oliveira deu uma entrevista pública onde falou da sua vida e da relação com Amália Rodrigues: "Amália nunca me deixou cantar em francês em Paris"

Não gosta de ser tratada por senhora dona, nem por diva e muito menos por ícone. Simone de Oliveira, a cantora e atriz que já foi distinguida por dois Presidentes da República, quer ser tratada apenas por Simone. Mas ela própria não consegue tratar as pessoas por "tu", como reconheceu nesta semana em mais uma entrevista pública integrada no ciclo 30 Portugueses, Um País, iniciativa do grupo hoteleiro PortoBay.

Com Amália Rodrigues, era um misto: "Com a Amália era tu cá tu lá. Mas umas vezes tratávamo-nos por "tu" e outras vezes por "você"." Bem sentada, vestida de rendas negras e coração de filigrana ao peito, relembrou a sua relação com Amália e as duas vezes em que foi convidada pela ícone do fado para cantar no estrangeiro.

Mas cantar em francês em Paris, na sala de espetáculos Olympia, apenas Amália podia. "A Amália nunca me deixou cantar em francês em Paris - quem canta em francês sou eu, dizia ela." No ano passado, a vida com os seus truques de humor colocou Simone de Oliveira no palco do Olympia a cantar quatro fados da Amália em francês: "Estive no camarim que seria dela se estivesse viva, cantei em francês, acabei com o Olympia a bater palmas em pé e a minha filha a assistir."

"A Simone é uma diva que está ao lado das pessoas de carne e osso. A Amália era uma diva que pairava em cima das pessoas de carne e osso", defendeu Luís Osório, o moderador e um dos mentores desta iniciativa que em 2019 dará origem a um livro editado pela Guerra e Paz. Afirmação que leva de imediato a convidada a discordar com um movimento de cabeça e a apresentar-se: "Não sou ícone, chamo-me Simone e canto cantigas. "

Como se define? "Gostava de ter sido homem porque os homens podem fazer tudo", disse, contando que levou muito tempo a ter respeito pelo sexo oposto. Com 19 anos saiu de casa poucos meses depois de casar. "Bateu-me por causa de um tostão na conta da mercearia." Lembra-se muito bem desse jantar de cozido à portuguesa, onde também estava a sua irmã de 15 anos. "Ele próprio tinha uma cara quadrada, era todo quadrado, mas eu aos 16 anos não dei por isso."

Estava na cara: "A minha mãe é que tinha razão quando se opôs àquele namoro", reconheceu mais à frente na conversa quando falou das lições de vida que gostaria de ter recebido dos seus antepassados e as que conta passar à próxima geração. O tempo mostrou-lhe que a recomendação da sua mãe estava certa. Mas Simone não é apologista de conselhos. Nem acredita que sirvam para evitar coisa alguma. "Não deixarei nenhum conselho [aos netos]. As pessoas têm de fazer escolhas e a vida tem de lhes dar conselhos."

A vida acontece sozinha? Com 80 anos, diz que não escolheu a vida que teve e que foi a vida que a escolheu a ela. Defende que, em parte, a vida acontece sozinha, mas que podemos ajudar com uns empurrõezinhos. "Quando me fecham as portas invento uma janela qualquer nem que seja à cabeçada. E olhe que já inventei algumas e algumas cabeçadas doeram muito."

Pioneira do movimento #MeToo? "Falei nisso há 50 anos e só agora é que descobriram que acontecia? Controversa, a posição de Simone afasta-se do movimento que tem levado mulheres e figuras públicas vítimas de assédio sexual a revelarem o nome dos seus assediadores: "Elas só estão a falar nisso agora, ao fim de 30 anos, mas na altura deu-lhes jeito. Dizem que foram assediadas? Então porque aceitaram", indigna-se.

"Eu não fui rica porque não quis." Uma vez recebeu uma proposta de um homem que lhe ofereceu casa na Avenida de Roma, 30 contos de mensalidade para tratar dos filhos e um carro de luxo. Que maçada, respondeu-lhe, "está a dar-me tudo o que tenho", contou de forma teatral, alterando o tom de voz quando menos se espera e surpreendendo com tiradas reveladoras aqui e ali.

Considera que raramente se engana na avaliação que faz dos outros. E sabe que tem um olhar intenso que muitas vezes inibe. "Este ar é da minha avó, a minha filha ainda tem mais e o meu filho tem ar de ministro quando está zangado." Nas alturas em que está menos bem-disposta parece que os seus olhos verdes ficam mais claros e que as abas do nariz se abrem. Soube construir a sua marca a dona da esfolhada, canção que levou ao Festival da Canção há 50 anos num longo vestido verde que guarda pendurado no guarda-fatos da sua casa no Príncipe Real a que chama Pombal.

Para a semana, no dia 20 de novembro, o primeiro-ministro António Costa será o convidado. Este ciclo de encontros com portugueses que se destacam começou em maio de 2018 e termina em fevereiro de 2019.

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