A estagiária que chegou ao topo da Bolsa de Nova Iorque

Stacey Cunningham faz história na bolsa norte-americana ao suceder a Thomas Farley. Carreira em Wall Street começou com estágio de verão em 1994

A Bolsa de Nova Iorque fechou ontem com uma subida inédita. A de uma mulher ao lugar da presidência, pela primeira vez em 226 anos. A escolhida foi Stacey Cunningham, de 43 anos, até aqui diretora de operações da maior bolsa de valores do mundo, onde são negociadas todos os dias 1,5 mil milhões de ações.

"Desde o primeiro momento que pisei a sala de negociações, há mais de 20 anos, que a Bolsa de Nova Iorque (NYSE) ocupa um lugar especial no meu coração. É uma honra ter a oportunidade de liderar esta organização", escreveu Cunningham no seu perfil no LinkedIn.

O caminho para a liderança começou a ser desenhado em 1994. Cunningham, que será a 67.ª presidente da NYSE, chegou a Wall Street num estágio de verão. "Estava à procura de trabalho como empregada de mesa, pensei que não me iriam contratar na NYSE porque não tinha experiência", contou ao Financial Times no ano passado. Com a ajuda do pai conseguiu entrar em Wall Street. Foi amor ao primeiro trade. "Assim que entrei na sala de mercados soube que era aquilo que queria fazer."

Nos anos 90, não havia movimento #MeToo a escrutinar a Bolsa de Nova Iorque, onde a casa de banho das mulheres do sétimo andar era numa velha cabina telefónica, que contrastava com as instalações "palacianas" dos homens, contou Stacey numa entrevista. A "novata" juntou-se na altura a uma equipa com mais de 1300 pessoas, em que 30, no máximo, eram mulheres. "Nunca questionei se tinha autorização para estar ali pelo simples facto de ser mulher", afirmou.

Em 2005, quando as máquinas começaram a dominar o sobe-e-desce da bolsa, a paixão de Stacey começou a esmorecer. Durante dois anos, os números deram lugar à jaleca. Cunningham inscreveu-se no Instituto de Culinária de Manhattan e foi trabalhar para um restaurante no Upper West Side, onde o ambiente de alta pressão "era muito parecido com a sala de negociações da bolsa".

Mas o coração continuava a bater pelo trading e o regresso ao mundo financeiro não tardou. Em 2007 ingressou no Nasdaq, o índice tecnológico de referência dos EUA, onde Cunningham ficou até 2012. Foi nesse ano que regressou à NYSE, onde a partir de sexta-feira vai suceder a Thomas Farley, que ocupava o lugar desde 2014 .

Com a escolha de Stacey Cunningham, passam a ser duas as mulheres em cargos de topo no mercado de ações norte-americano. Desde janeiro do ano passado que o Nasdaq é liderado por Adena Friedman. Sinais dos ventos de mudança que sopram no "clube de rapazes" de Wall Street.

Nas poucas declarações públicas que lhe são conhecidas não faltam referências aos direitos das mulheres. A última foi feita há cerca de um mês. "Não podia estar mais contente por ver a estátua da Menina sem Medo mudar-se para a Bolsa de Nova Iorque. A sua chegada a Manhattan despertou um debate intenso sobre o seu significado. Para mim, ela é uma inspiração para enfrentar qualquer desafio e partilhar a sua visão de um mundo cheio de oportunidades para toda a gente." A oportunidade de Stacey Cunningham acontece 75 anos depois de uma mulher, Muriel Siebert, ter sido admitida na Bolsa de Nova Iorque pela primeira vez.

O novo desafio de Cunningham chega numa altura em que a NYSE enfrenta um longo e custoso processo de modernização. Na sala de mercados, diz a nova presidente, "ouvem-se menos gritos e mais apitos. Mas o sentimento é o mesmo".

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