Inovação colaborativa: a startup como o motor de inovação das grandes empresas

Recordo-me de há uns meses atrás um director geral de uma grande empresa portuguesa dizer-me "antigamente as pessoas vinham ao escritório e criávamos uma cultura. Hoje algumas pessoas vêm 2.ª e 3.ª feira, outras 5.ª e 6.ª feira, outras semana sim, semana não, e outras nem vêm. Como é que se cria uma cultura nestas condições?"

Os últimos dois anos trouxeram muitos e novos desafios e num momento em que nos encontramos perto de mais uma edição da Web Summit, importa olhar para o papel das startups de uma forma ainda mais determinante - como podem estes projectos e estas startups ter impacto na inovação das grandes empresas, e, consequentemente, em indústrias e cadeias de valor?

Portugal tem-se afirmado, cada vez mais, como um cenário europeu de eleição no universo das startups. Segundo a Startup Portugal, existem mais de 2000 projetos inovadores com este estatuto registados em todo o país, sendo que, já em 2020, o mercado português estava 13% acima da média europeia no que respeita ao número de startups per capita, segundo a Dealroom. E a Web Summit terá certamente contribuído para dar visibilidade a este ecossistema, que apesar de ter vindo a registar uma grande evolução ao longo dos últimos tempos, é ainda jovem e com um elevado potencial de crescimento.

Mas no seio das organizações de grande dimensão, inovar nem sempre é tarefa fácil.

Ao serem regidas por processos bem oleados, estruturas hierárquicas com papéis bem definidos e muitos profissionais envolvidos, pode tornar-se mais moroso para estas entidades criarem algo disruptivo e responder com agilidade a alguns desafios. É nesse sentido que as startups podem ajudar, sendo que, para isso, é importante olharmos para uma forma de inovação colaborativa - baseada num trabalho de inovação conjunto entre toda a cadeia de valor - e passar-se da teoria à prática.

É assim necessário unir as startups às empresas, para que juntas possam ajudar a resolver os desafios de organizações, indústria e ecossistema. As startups trazem agilidade, novas ideias e conhecimento de ponta, mas não têm necessariamente a experiência e os recursos para construir, testar e desenvolver as suas soluções de forma económica e em escala. As empresas podem ajudar com esses desafios, partilhando experiência e a possibilidade de testar produtos em cenários reais. É um cenário vantajoso para ambas as partes e que ainda permite partilhar conhecimento e antecipar tendências, trabalhando em benefício do ecossistema.

Existem programas que fomentam esta relação, e que são baseados num modelo de inovação colaborativa. Recordo-me de alguns relevantes em Portugal como o Re-Source, realizado em parceria com a Sociedade Ponto Verde e que coloca empresas a trabalhar com inovadores para resolverem os principais problemas atuais da reciclagem de resíduos. Ou o NextLap, relacionado com a Economia Circular de pneus, e o Free Electrons, um programa à escala mundial, focado no sector da energia.

No entanto, e porque vivemos num mundo com novos desafios, a inovação colaborativa deve ir ainda mais além. Não podemos ficar apenas pela relação entre as empresas e startups. É necessário que esta seja pensada também, por exemplo, entre grandes empresas, universidades e mesmo entre PME"s, investigadores, investidores e governos. É necessária uma abordagem sistémica à inovação, que inclua todos os players do ecossistema, que permita que todos juntos possam desenvolver projetos com impacto na economia.

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