Há mais 35 mil empregos em risco na construção

Empresários pedem definição clara das obras públicas de que o país necessita e o aproveitamento dos fundos comunitários para as realizar. Podem desaparecer mais 8500 empresas

O governo tem de olhar "de forma diferente" para a construção. Em risco estão, só neste ano, 8500 empresas e mais 35 mil postos de trabalho, o dobro dos números de 2015. O alerta é da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) e do Sindicato da Construção de Portugal, que ontem reuniram-se para discutir os problemas do setor e "delinear soluções comuns" a apresentar ao executivo.

Reis Campos, presidente da associação patronal, lamenta que o Estado acabe por adjudicar apenas metade dos concursos públicos que lança: "Entre 2011 e 2015, foram lançados concursos públicos no valor de 8,8 mil milhões de euros, mas só foram entregues metade. Estamos a perder dinheiro e a criar expectativas que não são nada boas. Não faz sentido nenhum. Se as obras são necessárias, porque não se avança com as adjudicações?"

Albano Ribeiro, presidente do sindicato, avisa que "há uma série de obras que estão a terminar, como o Túnel do Marão e as barragens de Salamonde e da Venda Nova, e que vão deixar sem trabalho, no espaço máximo de três ou quatro meses, cerca de sete mil operários. O que vão eles fazer? Emigrar?", pergunta.

O sindicato diz que estão a crescer as situações de "abandono de trabalhadores portugueses em Inglaterra, levados por engajadores com a promessa de salários de dois mil euros", e assegura que já alertou o governo.

A indefinição é a principal preocupação. A construção "esteve paralisada" nos últimos seis meses, por causa dos ciclos eleitorais. "A verdade é que sofremos um enorme desgaste no segundo semestre de 2015 e ainda continuamos à espera de que se decida quais as obras que o país precisa e quais vão ser feitas", diz Reis Campos.

E dinheiro? "Temos de o ir buscar aos fundos comunitários onde ele existe", frisa. Os empresários reclamam, ainda, um "quadro fiscal estável" que dê "confiança" aos privados e "atenção e resposta rápida" aos pedidos dos investidores estrangeiros, "que não podem estar sujeitos à indiferença com que têm sido tratados".

Albano Ribeiro defende uma "união de esforços" dos países do Sul para obter uma "renegociação da dívida" que permita retomar os investimentos no parque escolar, na requalificação da via férrea e dos hospitais. Bem como uma aposta na reabilitação: "Os 60 mil fogos muito degradados que existem permitiam criar 30 mil empregos."