Há caminhos para fugir à tempestade que se vive nas bolsas

O conselho dos analistas, para evitar a turbulência que parece estar para durar, é apostar em setores ligados às exportações

A turbulência que tem assolado os mercados financeiros desde o final do ano passado deverá manter-se e os investidores estão atentos às variações da bolsa e às oportunidades de investimento, num contexto de tempestade (quase) perfeita, quer a nível económico quer político.

O brexit, as eleições nos Estados Unidos, o referendo em Itália, a política monetária do BCE e da Fed, a volatilidade do preço do petróleo e as expectativas relativamente ao crescimento da China são fatores globais que afetam as bolsas e a confiança dos investidores. E os analistas já têm bem identificados os sinais de alerta.

"A China pode causar distúrbios a nível mundial", diz Rui Bárbara, economista do Banco Carregosa. "A China precisa de um reequilíbrio da sua economia, ou abranda a velocidade do seu crescimento para níveis normais ou vai chocar contra a parede dentro de três a cinco anos. As consequências serão tão graves que é difícil imaginar alguma zona do globo que não fosse afetada", avisa.

Os analistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo esperam que o PSI 20 (índice da Bolsa de Lisboa) tenha "algum potencial, tirando o risco soberano", sobretudo nos títulos "que menos pesam no índice nacional", diz a equipa de research do Banco BiG.

Pedro Lino, da DIF, avisa que "uma queda abrupta no preço das obrigações pode ter efeitos nocivos na dívida portuguesa e impactos negativos na carteira de investimento", devido a um cada vez mais iminente "fim da bolha no mercado das obrigações", que constitui um perigo para os bancos, seguradoras, e investidores que estão a apostar em obrigações a dez anos com taxas de juro negativas.

A China ou abranda a velocidade do seu crescimento para níveis normais ou vai chocar contra a parede

Já Henrique Dias, gestor de ativos da XTB, aponta a possibilidade de haver uma nova crise da dívida como o maior risco, o que pode levar a alguma "instabilidade nas taxas de juro das obrigações dos países com economias mais débeis, podendo ser o caso de Portugal".

O analista da XTB coloca o foco em Portugal na reorganização do setor financeiro, enquanto a Europa vai ficar marcada pelo brexit e pela solução que o BCE terá de encontrar para evitar as consequências da diminuição do programa de compra de ativos.

Para Rui Bárbara, em Portugal o maior risco é "o que possa acontecer à Europa", sendo certo que o último trimestre será marcado pela "continuação da tendência: o crescimento dececionante vai continuar".

Na Europa, "vemos uma grande divergência entre as avaliações dos setores mais saudáveis e aqueles que têm problemas (banca, matérias-primas), o que deixa os índices mais dependentes da recuperação dos setores mais especulativos para registarem mais subidas", diz a equipa de research do BiG.

Rui Bárbara avisa que a questão política é o principal tema. "A construção da zona euro foi como uma casa que começou a ser feita pelo telhado e vive em fragilidade política." E quando o crescimento económico é reduzido "vêm ao de cima os distúrbios políticos".

Então, onde investir?

Para a equipa de research do BiG, os investidores devem apostar, na Europa, no setor químico. "Poderá ser uma boa aposta, pelo seu mix de composição (tecnologia e saúde) e vemos o setor da tecnologia como uma boa aposta, devido às atrativas perspetivas de crescimento futuro", do setor de consumo de luxo, "uma vez que assenta num perfil exportador e que poderá beneficiar da evolução do euro face ao dólar". Ainda no âmbito exportador, os analistas apontam também o setor automóvel.

Pedro Lino aconselha a que não haja foco no setor financeiro, "pelo menos até existir uma estratégia clara de como lidar com o nível europeu de empréstimos em incumprimento". Assim, o analista aconselha investimentos em setores ligados às exportações", aproveitando a valorização do dólar face ao euro, que beneficia as exportadoras.

Já Henrique Dias refere que, no petróleo, podem-se atingir novos máximos "se a OPEP conseguir levar a cabo o pré-acordado e desde que não ocorram eventos externos por parte dos Estados Unidos, como o aumento da produção de petróleo com base em xistos argilosos". O mesmo analista refere que o dólar é um ativo que poderá valorizar, devido à expectável subida das taxas de juro".

Rui Bárbara aponta que "os investidores típicos de obrigações transferiram-se para as ações, o que vem encarecer muito as melhores empresas. As ações de empresas sólidas, não dependentes do ciclo económico, são boas mas estão demasiado caras. As ações que não são caras são de empresas cíclicas, que variam com a conjuntura económica, e essas só quando o crescimento económico acelerar serão boas apostas. Até lá, o risco de dececionarem os investidores é elevado", avisa.

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