Europa. Um país em recessão, oito à beira dela e um enorme balde de água fria sobre Portugal

Agora que estão apuradas as contas do terceiro trimestre de todos os 27, Eurostat revela que já há um país em recessão técnica, a Estónia, e oito à beira de um quadro recessivo. Grécia, Eslovénia e Letónia são os casos mais delicados. Alemanha ainda se aguentou até setembro, mas previsões para 2023 dão tombo na maior economia da UE.

Desde que começou a guerra até ao final do terceiro trimestre, o crescimento da economia portuguesa levou com o maior balde de água fria no grupo dos 27 países da União Europeia (UE), mostrou ontem o Eurostat no destaque sobre as contas nacionais agora completas e que abrangem todos os Estados-membros.

Há um mês, Portugal já liderava este ranking, mas nessa primeira estimativa (preliminar) do Eurostat só eram contemplados dez países.

Agora, apurados todos os 27, Portugal confirma a liderança no grupo onde a erosão do crescimento é mais rápida.

O choque no crescimento é o maior, mas Portugal ainda não está sequer em estagnação, nem recessão.

Mas casos há na Europa onde a crise já assumiu a forma de recessão ou quase. Há oito economias da UE à beira dela (contração da economia no terceiro trimestre e a Estónia já entrou em recessão técnica, de facto, que é quando a economia contrai dois trimestres seguidos.

No primeiro trimestre, portanto, antes de rebentar a guerra da Rússia contra a Ucrânia, basicamente, Portugal cresceu uns impressionantes 12% face aos primeiros três meses de 2021, reflexo de um efeito de base enorme por causa da pandemia.

No primeiro trimestre do ano passado, a economia estava de rastos por causa dos sucessivos confinamentos à atividade e ao movimento de pessoas decretados para combater a pandemia. E o país viveu nessa altura os momentos mais devastadores em termos de mortes e hospitalizações por causa da covid.

Entretanto, este ano, o turismo, a construção, o comércio, os serviços em geral deram alento a uma retoma, mas esta cedo começou a ser ensombrada pela crise energética e pela inflação elevadíssima (coisa nunca vista desde que existe o euro).

Num primeiro momento, a inflação até puxou de forma significativa pela faturação de muitas empresas (e pela receita fiscal e contributiva do governo), mas começa a haver sinais de que se chegou à entrada de um túnel de dificuldades crescentes e onde a incerteza impede de ver onde pode terminar.

Em Portugal, os números mais amargos já começaram a sair. A crise está a transformar-se em mais desemprego, menos emprego, menos negócios, menos produção. O turismo é o setor que ainda parece resistir.

No terceiro trimestre Portugal cresceu 4,9%, acima da média europeia (2,5%), um dos ritmos mais altos da união. Mas, como referido, a queda foi enorme, mais de sete pontos percentuais no crescimento homólogo.

Em cadeia, o produto interno bruto (PIB) real português ainda avançou 0,4%, o que mostra que, apesar do balde gelado, a economia consegue resistir até setembro (aproveitando o verão turístico fulgurante, por exemplo), mas olhando à volta o cenário começa a ser preocupante.

Bélgica, Espanha, França e Áustria estão quase estagnadas (cresceram apenas 0,2% no terceiro trimestre), indica o Eurostat.

República Checa, Países Baixos, Finlândia, Croácia, Hungria, Grécia, Eslovénia e Letónia estão a meio caminho de uma recessão (as respetivas economias quebraram no terceiro trimestre).

A Estónia é o primeiro Estado da UE a entrar oficialmente em recessão.

Para 2023, os prognósticos do cenário central (não muito severo) da Comissão Europeia (CE) dizem que tudo deve piorar antes de melhorar em 2024.

E, também aqui, Portugal leva com o maior balde de água fria no ritmo da economia, colocando o crescimento anual previsto para 2023 em apenas 0,7%, disse recentemente a CE.

Mas há casos mais difíceis e até ameaçadores. A Suécia deve registar uma recessão de 0,6% no ano que vem, a Letónia regista uma contração de 0,3%.

É a Alemanha, a maior economia da UE e um dos maiores parceiros económicos de Portugal, que mais vai contribuir para a degradação da economia europeia. A Comissão prevê uma retração de 0,6% em 2023. O FMI diz que Itália pode seguir-lhe as pisadas.

A perder força neste campeonato do crescimento

Voltando a Portugal. Como referido, o quadro está cada vez mais cinzento. Os indicadores oficiais mais recentes, que já medem o começo do quarto trimestre deste ano, são quase todos desfavoráveis.

"O volume de negócios no comércio a retalho abrandou, passando de uma variação homóloga de 2,3% em setembro para 0,5% em outubro de 2022, sobretudo devido à redução no comércio de produtos alimentares", diz o INE.

Na indústria, setor que representa o núcleo duro da economia e pode ajudar antecipar o quão negativa e longa é a conjuntura que se está a formar, os sinais também são maus.

A produção industrial registou "uma variação homóloga de -2% em outubro (0,3% em setembro)" e "excluindo o agrupamento da Energia, a variação foi de -2,4% (1,5% no mês precedente)".

No segmento das indústrias transformadoras, o mais importante no setor secundário e peso pesado das exportações, o INE já deteta uma forte quebra na faturação. Aqui a produção afundou 1,9% em outubro. Estava a crescer 1,2% em setembro.

Ontem, a AICCOPN - Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas enfatizou a "elevada resiliência" do setor que representa, mas há sinais preocupantes.

"Nos primeiros nove meses de 2022, de acordo com as contas nacionais trimestrais [do INE], o PIB do setor registou um aumento de 8%, em termos homólogos".

No entanto, o investimento e o valor acrescentado bruto do setor da Construção cresceram apenas "0,8% e de 1,1%, respetivamente", num período de "forte incerteza, marcado por um aumento acelerado da inflação, pela subida das taxas de juro e por um atraso no lançamento das obras públicas previstas", lamenta a associação empresarial.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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