Matthias Fekl: "França é o primeiro investidor estrangeiro em valor acrescentado"

O secretário de Estado do Comércio Externo francês está hoje em Lisboa para debater o papel
do seu país no crescimento económico português. As 700 empresas gaulesas geram em Portugal mais de 60 mil empregos e negócios de 12 mil milhões de euros

Qual é a mensagem que traz hoje a Portugal? O contexto político e económico português é favorável ao investimento estrangeiro?

As relações entre os nossos dois países são particularmente fortes. Trago a Portugal, onde vim participar na 4.ª Conferência Económica franco-portuguesa, uma mensagem de confiança, da França e das suas empresas, historicamente muito presentes em Portugal. As empresas francesas, apesar das dificuldades, mantiveram a sua presença através de vários investimentos de relevo em 2014 e 2015. Por exemplo, os grupos Alstom, Thalès ou Vinci mas também a ETI e a PME. Quero, pois, trazer uma mensagem de pragmatismo e de ambição em matéria de negociações comerciais, em particular às negociações com o Canadá, o Acordo de Comércio Global Económico (CETA), e com os EUA, o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP). Este assunto diz coletivamente respeito aos países europeus.

Como vê a nova política económica, que inclui, por exemplo, a recomposição do capital da TAP e a anulação das subconcessões nos transportes públicos? São sinais preocupantes para os investidores franceses?

As empresas, para investirem, apoiam-se no potencial e na estabilidade de um país. Ora, o que eu observo é que o fluxo de investimento francês em Portugal não enfraquece e que as empresas francesas apostam no futuro do país. Atualmente, existem mais de 700 empresas ou filiais francesas que empregam mais de 60 000 pessoas em Portugal, com um volume de negócios anual de 12 mil milhões de euros. A França tornou-se o segundo empregador estrangeiro, depois de Espanha e, pela primeira vez desde 2000, é o investidor estrangeiro n.º 1 em Portugal em termos de valor acrescentado gerado (2,6 mil milhões de euros em 2014). É a prova de que as empresas francesas permitem criar emprego de qualidade, altamente qualificado, em muitos setores. Não desejo comentar a anulação do contrato de subconcessão do Metro do Porto assinado com a Transdev. Mas a decisão não interfere com os outros investidores franceses, que continuam a investir em Portugal: o grupo Mecachrome, por exemplo, investiu 30 milhões de euros numa fábrica de componentes aeronáuticos em Évora; e o grupo GMD vai investir 25 milhões numa fábrica de componentes automóvel em Arcos de Valdevez.

Portugal poderá fazer mais para atrair os investimentos estrangeiros?

Vivemos num mundo muito competitivo. Para atrair o investimento, um país tem de ser competitivo e desenvolver certas vantagens (por exemplo, em matéria de qualidade dos serviços públicos, de educação, de formação profissional, de infraestruturas, de ambiente jurídico). França e Portugal desejam lutar contra a calamidade que o desemprego representa, particularmente o desemprego jovem. Como todos o sabemos, o emprego só aumenta para lá de um certo nível de crescimento económico. Para tal, as nossas economias precisam de melhorar a competitividade e, claro, de atrair investimentos. França e Portugal partilham dos mesmos conceitos em matéria de relançamento do crescimento e do investimento no seio da UE. Os dois governos apoiam a execução do Plano Juncker para o investimento, em setores de futuro, como o digital ou a energia. Os investimentos europeus têm de ter um efeito de alavanca, de criar atividade e, portanto, oportunidades, e atrair outros investimentos estrangeiros. É uma dinâmica positiva tanto em matéria económica como política de que, aliás, toda a Europa necessita.

Há empresas francesas com a intenção de aumentarem os seus investimentos em Portugal?

Portugal tem interesse para as empresas francesas por se tratar de um mercado de proximidade geográfica e cultural, mas por ser também uma plataforma formidável de acesso aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). A maior parte das empresas francesas já presentes em Portugal tem a intenção de reforçar os seus investimentos a fim de acompanhar a retoma em curso. Há novas empresas a olharem também ativamente para o mercado português, nomeadamente no setor do e-comércio. Estas ditas empresas transmitirão as suas decisões oportunamente e ficarão a saber mais no final da 4.ª Conferência Económica franco-portuguesa, que contará com a presença do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral.

Porto e Lisboa são cidades que estão na moda. Paris perdeu fluxo turístico em benefício de Portugal ou de outros países por causa da ameaça terrorista?

Constatámos efetivamente e logicamente uma redução temporária da frequência turística na região parisiense no final do ano passado. Não dispomos ainda de dados que nos permitam afirmar que este recuo se fez em benefício de Portugal ou de outros destinos. Quero, no entanto, sublinhar que por toda a França, no mesmo período, os turistas estrangeiros foram tantos, ou mesmo mais, do que habitualmente. Com 84 milhões de visitantes estrangeiros por ano, a França continua a ser o primeiro destino turístico mundial, à frente dos EUA. Gostaria de tranquilizar os portugueses que pensam ir a França este ano: todas as medidas necessárias foram tomadas pelo Estado e pelos profissionais do turismo francês para os receber nas melhores condições. O governo adotou medidas de segurança importantes e duradouras para que a França continue a ser um destino seguro. Temos a sorte, franceses e portugueses, de viver em países magníficos, cujo setor turístico representa uma mais-valia apreciável. Constatei que Portugal registou excelentes resultados turísticos em 2015, e felicito-o por isso. Os turistas franceses contribuem em larga escala, cada vez mais, e isto é uma boa coisa! No outro sentido, a França é o segundo destino dos turistas portugueses.

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