"Devia haver uma uberização da recolha do que queremos descartar"

A Sociedade Ponto Verde (SPV) foi criada em 1996 e é responsável pela gestão e destino final dos resíduos das embalagens colocadas pelas empresas no mercado. É uma organização privada sem fins lucrativos, com uma missão de interesse público. Ana Trigo Morais é desde 2018 presidente da SPV.

Que alterações trouxe a pandemia aos hábitos de reciclagem?

Surpreendeu-nos. Em abril/maio de 2020, começámos a ver mais embalagens encaminhadas para reciclagem. Foi muito interessante, pensámos se seria uma tendência pontual ou o que o explicaria e percebemos que, em confinamento, as pessoas encaravam a ida ao ecoponto como forma de sair de casa. E teve este efeito imediato. Quando as medidas abrandaram, a expectativa era que a reciclagem também abrandasse, mas não.

O aumento dos resíduos domésticos foi compensado pela redução dos empresariais?
A SPV é responsável pelo encaminhamento e valorização das embalagens de grande consumo - estamos focados no consumo dentro e fora de casa e se o primeiro trouxe mais embalagens para reciclar, no segundo, representando grande parte de um setor relevantíssimo da economia, para não falar do turismo e todos os resíduos que nos vinham daí, houve uma quebra muito significativa. Compensada pelos resíduos de dentro de casa. Houve uma migração de fora para dentro de casa e uma alteração do padrão de consumo. Já ouvi muitas vezes e em parte é verdade, que a pandemia trouxe um aumento de uso de embalagens de plástico, sobretudo com o take away e o home delivery nos restaurantes. Mas o plástico foi dos materiais em que as quantidades para reciclar mais aumentaram. Portanto, registou-se uma alteração de comportamento dos portugueses. A nossa atividade reflete as tendências de consumo, é indissociável destas e do comportamento dos cidadãos.
Vídeo: Reciclagem aumentou durante a pandemia

Mas entre uma coisa e outra...
A reciclagem cresceu. Tivemos mais 9% de todos os materiais.

E a tendência mantém-se em 2021?
É difícil comparar num tempo novo, mas vê-se o reflexo do novo confinamento - com o padrão do consumo e da reciclagem a mudar. Agora com a abertura da economia, há de novo mais quantidades recicladas. Acaba por ser um barómetro do tipo de vida das pessoas.

De uma forma geral, a população porta-se bem? Já fazemos como o chimpanzé Gervásio?
O nosso Gervásio faz 20 anos e regressou reciclado! No âmbito da nossa missão de sensibilizar para a reciclagem, reciclámos e reinventámos o Gervásio com grande expectativa. Porque foi um sucesso: o Gervásio aprendia a separação em 1 hora e 12 minutos, mostrando que qualquer um o conseguia. Agora vem mostrar como se recicla mais e melhor. É uma campanha divertida, que apela muito aos sentimentos. O nosso objetivo é pôr a reciclagem no coração de todos.

Portugal vai cumprir as metas de reciclagem em 2021?
Todo o processo de reciclagem tem que ver com metas e o seu cumprimento com o propósito de mitigar, diminuindo a pegada ambiental pelo consumo. Mas a reciclagem é o terceiro R: temos de nos preocupar em Reduzir o consumo de embalagem, Reutilizar, e no final de vida da embalagem cá está a SPV para a encaminhar para a Reciclagem. Temos metas ambiciosas, o que torna urgente toda a nossa cadeia de valor, de quem leva produtos ao consumidor e para isso usa embalagens até ao consumidor que faz a escolha no momento da compra e a toda a infraestrutura do país para encaminhar para reciclagem. E temos uma rede de 60 mil ecopontos: verde, amarelo e azul. Se nas embalagens a reciclagem até agora permitiu ao país cumprir as metas no plástico, no papel-cartão e no metal, e a SPV congratula-se com o seu contributo neste caminho, há necessidade de fazer mais, melhor e diferente. Temos metas muito ambiciosas decorrentes das diretivas europeias que nos desafiam a andar mais depressa. Porque, estando bem nas embalagens, em que o país cumpre e vai além das metas, se olharmos para tudo o que podemos reciclar temos muito a fazer. Quando falamos em metas globais de reciclagem, diz-se que Portugal não cumpre. É isso que nos preocupa...

E não cumprimos?
Globalmente, de todos os materiais, não estamos a cumprir.
Vídeo: Quebra de reciclagem empresarial compensada por aumento residencial

O que é que temos de reciclar mais? Pilhas, lâmpadas, eletrodomésticos?
Fizemos agora um estudo muito abrangente, coordenado pelo ICS e pela professora Luísa Schmidt, para saber o que os portugueses pensam, percecionam e o que estão dispostos a fazer na reciclagem. E esse estudo mostra que estão preocupados com o plástico, porque percebem o impacto ambiental, mas também é do que mais reciclamos, a par do vidro. O papel-cartão também é muito percebido para a reciclagem. Mas quando perguntamos o que mais se recicla, são plásticos, vidro, cartão e metais de embalagem... só 42% falam em embalagens de medicamentos, pilhas e acumuladores, só 24% apontam resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos.

É preocupante...
Inquieta-nos, nesta visão do tema do ambiente, porque cada vez mais a nossa vida é suportada em equipamentos destes - eletrodomésticos pequenos, mas sobretudo telemóveis, computadores e outros que fazem parte do nosso quotidiano. E temos muito que andar nestes fluxos. Nas embalagens também temos grande preocupação: para atingirmos estas metas ambiciosas do plástico de uso único em Portugal, que estão a ser transpostas da diretiva europeia, há um conjunto de materiais que deixarão de poder ser usados. O grande desafio é como os usamos de forma a diminuir o seu impacto ambiental. E é aqui que entram os três R e as novas formas de ir buscar os resíduos no pós-consumo. A acrescer aos ecopontos deve haver outras formas de prestar serviço de conveniência aos cidadãos para ir buscar os seus resíduos.

Por exemplo?
Olhando tendências próximas, diria que temos de evoluir com sistemas de porta a porta eficientes, ir buscar os resíduos e preservar a sua qualidade para poderem ser aproveitados e voltar a entrar nos processos, digitalizar e servitizar a recolha. Tenho a certeza que todos gostávamos de poder estar em casa e chamar alguém para ir buscar os resíduos, uma espécie de uberização para o que queremos descartar e que está em fim de vida. É nestes exemplos concretos que vejo oportunidades para melhorar e modernizar muito a gestão de resíduos em Portugal e uma oportunidade para a inovação, a nossa academia e a indústria melhorarem.

É o momento de nos focarmos nessas oportunidades?
Agora que estamos a discutir o PRR e esta nova oportunidade que o país tem de modernização, julgo que é importante que o setor de gestão de resíduos tenha especial atenção à industrialização verde para a economia circular. A nossa missão é tratar da reciclagem das embalagens, mas precisamos de mais indústria de reciclagem em Portugal para fazer a economia circular e ter mais matéria-prima secundária a voltar a entrar no consumo. Precisamos de mais investigação e inovação - e a SPV posiciona-se como acelerador de inovação na gestão da cadeia de valor das embalagens, porque sentimos essa necessidade e achamos que há aqui uma oportunidade de desenvolver esta tecnologia e de sermos um exemplo. De criar soluções com base na digitalização, otimização e eficiência da gestão da cadeia de resíduos para o mundo. Este programa que desenvolvemos no âmbito da estratégia de inovação de gestão que é uma nova forma de economia circular teve 82 candidaturas de mais de 15 países. O que também diz algo sobre os inovadores não terem fronteiras.

Mas há projetos já em campo em municípios?
Nós trabalhamos com todos e com as ilhas, fazemos um serviço universal, e recentemente abrimos em colaboração com a Maia Ambiente - que é um município bastante empenhado - um processo diferente de tratar os resíduos, que tem que ver com a emissão de uma fatura para cada munícipe, para saber quanto custam os seus resíduos. Uma fatura por lar. Isto será talvez um ponto-chave no envolvimento dos cidadãos com a reciclagem. Porque as pessoas pagam a gestão dos resíduos na fatura da água e saber quanto custa tratar a sua pegada ambiental pode ser um incentivo ou uma penalização.

Em Portugal, quanto paga cada pessoa por isso?
Não tenho esses dados, porque cada português paga a gestão de resíduos urbanos na água e o consumo é indexado ao da água. Este estudo que referi, Os Portugueses E A Reciclagem, diz que só 16% dos inquiridos sabem que pagam a gestão de resíduos na fatura da água; e só 6% sabem o valor. É um afastamento muito grande entre os cidadãos e o serviço prestado - em que muitas vezes é o município o frontline. Os portugueses não sabem quanto custa ter uma cidade limpa, bom ordenamento do território, ter uma rede de ecopontos que funciona.

Muitas pessoas acham mesmo que separar é indiferente porque no fim se junta tudo...
Exato. É fundamental trazer esta transparência, que é complementar aos gervásios e à inovação que possamos ter. E que nos leva a outro tema: saber que aquele pequeno gesto pode valer um incentivo na sua fatura de gestão de resíduos ou uma penalização, vai resultar em ação. Penso que é o próximo passo na gestão de resíduos.

Mas insisto, cada português paga quanto, em média?
Depende do concelho, da estrutura dos serviços, se é prestado pelos municípios... Mas posso dizer que a SPV paga, ao conjunto de todos os municípios para gerir a infraestrutura de ecopontos, 70 milhões de euros por ano. É quanto custa gerir os ecopontos. Gerimos com os parceiros, os sistemas municipais e intermunicipais, e é caro gerir os nossos resíduos. Temos recolha em baixa - tratamento dos ecopontos por municípios ou operadores privados de gestão de resíduos - e em alta, que é onde a SPV remunera o que nos chega por peso, quantidade e material.

Os municípios estão contra o aumento da Taxa de Gestão de Resíduos, que em três anos vai triplicar. Já disse ser a favor, mas é razoável passar de 11 para 35 euros/tonelada em 2024?
Esse é um tema sempre sensível. Globalmente, nós acompanhamos a ideia de que se não cumprimos as metas como cadeia de valor tem de haver um incentivo ao cumprimento, e a TGR deve ter essa função. O aspeto que me merece preocupação é que a TGR devia ser calibrada para um aumento mais acomodável. E a receita devia ser usada para reinvestir no setor. Historicamente isso tem acontecido, mas hoje está mais mitigada a alocação ao investimento no setor, porque vai para o fundo ambiental - e muitas vezes não sabemos se está a financiar o melhoramento da cadeia de valor ou qualquer outro serviço, de um passe de mobilidade urbana a uma ciclovia. Não que haja demérito desses projetos, mas se uma taxa é criada com determinado objetivo, era importante usá-la para introduzir eficácia na cadeia de valor. Devia ser mais transparente e óbvio o incentivo.

A fiscalidade verde devia ser mais leve ou lenta...
Temos de ter muito cuidado com a forma como calibramos a fiscalidade verde, ela não pode ser um instrumento de per si, tem de ter um objetivo maior. O meu apelo é que não se criem mais instrumentos de natureza fiscal que não sejam comportáveis para empresas e consumidores e que todas essas taxas sejam mais claramente aplicadas. O país tem uma oportunidade extraordinária de, em vez de optar por mais impostos e taxas, mesmo que a fiscalidade seja verde e concordemos com os objetivos, aproveitar a sua modernização no âmbito destes novos fundos que teremos para investir em projetos diferenciadores, criar emprego e valor para a economia, numa lógica de convivência integrada entre a política económica e aquilo que é a realidade da atividade do país e o que é a preocupação e política ambiental no tratamento de resíduos. Não é economia contra ambiente e vice-versa, ninguém quer uma boa estrutura económica e um mau ambiente ou o contrário.

Está em cima da mesa criar uma tara de cinco a quinze cêntimos na compra de garrafas de água, sumos, latas de cerveja e refrigerantes. O que pensa da ideia?
Este sistema é um regresso ao antigamente mas moderno, com instalação de um parque de máquinas. Decorre das metas ambientais que temos de cumprir na recolha de embalagens, não só de plástico. Temos estudado vários modelos que existem na Europa e do ponto de vista ambiental o sistema dá-nos excelentes taxas de recuperação, portanto é um salto grande em termos de recolha de quantidades para reciclar e vem complementar o que já existe e é gerido pela SPV. A questão é como integramos o sistema e como o cidadão adere. No estudo que fizemos, os portugueses dizem-se muito disponíveis para comprar uma bebida e assumir esse compromisso. A pessoa paga a taxa quando consome e recebe o dinheiro quando entrega a embalagem, portanto é uma medida fiscalmente neutra.

A ideia das máquinas onde se podia devolver garrafas de água e receber uns talões para consumo não teve grande adesão...
Estamos a pilotar, há várias experiencias, mas globalmente a medida tem adesão da população, dependendo do incentivo que se dá. E são sistemas de recolha complementares, incrementais ao que existe e devem ser fiscalmente neutras para o consumidor. Não vale a pena inventar muito com novos sistemas, esse é bom para atingir as metas. O que é preciso é cuidado na montagem e não esquecer que ele vai conviver com os que já existem. Os portugueses dizem que querem reciclar mais mas querem saber melhor como, porque já não sabem bem onde pôr a garrafa de champô, a embalagem do detergente, etc. Temos de trabalhar nisso e explicar como se pode reciclar mais e melhor.

Neste ano, com a subida do takeaway, foi decretada uma taxa de 30 cêntimos nas embalagens. Como vê essa medida?
Mais uma vez, temos de olhar para o equilíbrio do impacto ambiental e do económico. Nós caminhamos num sentido de genericamente substituir embalagens de uso único por reutilizáveis, mas é preciso bom senso. Não pode ser feito de repente e sem alternativas no mercado. Tem de se dar tempo à adaptação dos agentes económicos. Substituir essas embalagens por outras que as pessoas levem de casa implica cuidados de segurança alimentar, no contacto dessas embalagens com os produtos, comunidades de lavagem em determinadas atividades... Tudo é possível e o que tenho realizado é que essas mudanças até são desejadas pelos agentes económicos, mas às vezes há dissonância na pressa que o legislador tem de aplicar medidas e o tempo dado ao tecido económico para se adaptar e criar soluções. Não me esqueço dos copos de plástico: eram um problema e tratou-se de arranjar uma solução. Mas a verdade é que os copos de plástico são praticamente 100% recicláveis e os de papel são muito mais difíceis de reciclar. Julgo que as empresas percebem o racional, mas há pouco tempo para aplicar. Gostava que fôssemos um pouco mais anglo-saxónicos: definir objetivos, metas intermédias, um ou dois anos para lá chegar... se não, a disrupção é tal que não se cumpre a ambição.

Portanto isto vai resultar simplesmente num aumento de 30 cêntimos para as pessoas.
Pois.., e quem paga é o consumidor. São oportunidades para inventar novos negócios, soluções, serviços e se olharmos com esta perspetiva vamos encontrá-las.

A transição energética trará desafios novos aos resíduos. Já há soluções para as baterias em fim de vida?
Temos uma grande ambição no roteiro para a neutralidade carbónica e tudo faz parte, cada um no seu fluxo. As soluções para as baterias são inovação que está a ser convocada, há muita investigação nessa matéria e já há algumas soluções, mas precisamos de muito mais. Porque o que está em causa é se temos soluções que cheguem para acompanhar o consumo e a velocidade do mercado.

Como desmistificaria o mito de que as pessoas separam as embalagens mas vai tudo parar ao mesmo sítio?
O mundo para além do ecoponto é grande. A SPV vai investir em explicar e tornar visível o que se passa a seguir. Sabemos que a maioria dos nossos parceiros encaminham devidamente para reciclagem e mesmo que haja perceção dessa mistura - que acontece cada vez menos - por vezes isso tem razões técnicas. E o objetivo é que deixe de acontecer de todo.

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