De Leiria para Hollywood

Countdown to Web Summit 2022 com Nuno Fonseca, CEO da Sound Particles.

A globalização tornou possível a qualquer empresa, em qualquer parte do mundo, ter a possibilidade de fazer negócios com qualquer cliente e em qualquer área. No caso da Sound Particles, tornou possível que uma empresa de Leiria faça software áudio que é usado em todos os grandes estúdios de Hollywood, e em produções como o Game of Thrones, Stranger Things, Dune, Frozen 2, Aquaman, StarWars 9, entre outros.

Eu tenho 3 grandes paixões: a tecnologia, o som e o cinema. Há 15 anos apercebi-me de que os efeitos visuais mais interessantes que via nos filmes, todos eles usavam sistemas de partículas, uma técnica de computação gráfica que cria milhares e milhares de pontos, de forma a recriar efeitos como fogo, fumo, explosões, tempestades de areia ou pó de fada. E achei que seria interessante fazer a mesma coisa, mas com som, criando milhares de pequenos sons, que juntos fariam sonoridades absolutamente fantásticas. Mas foi só uma ideia, como tantas outras que temos ao longo da vida.

Hoje em dia, as startups portuguesas dão cartas em vários mercados.

Em 2012, como cromo informático que sou (esta cara não engana ninguém), resolvi colocar as "mãos na massa", e criar o meu próprio software para gerar milhares de sons. Tinha consciência de que um software deste tipo seria particularmente interessante para grandes filmes de Hollywood criarem sons de batalhas e de outras cenas épicas, mas convenhamos, qual é a probabilidade de alguém em Portugal, criar um software para ser usado por estúdios de Hollywood, ainda por cima, em grandes produções? Mas acho que há alturas na vida em que temos de ser ingénuos (ou convencidos, dependendo do ponto de vista), e acreditar.

Em 2014, resolvi enviar 5 ou 6 e-mails, para alguns profissionais de Hollywood, a explicar a tecnologia, e dizendo que iria estar na vizinhança dentro de duas semanas (numa ida a uma conferência científica). A primeira resposta, do Skywalker Sound (o estúdio de som para cinema criado pelo George Lucas), convidou-me para ir ao Skywalker Ranch fazer uma palestra, e num espaço de 6 meses acabei por dar palestras na Warner Bros, Universal, Sony, Fox, Paramount, e mais tarde Disney, Pixar, Apple, Blizzard, Netflix, entre outros sítios.

E esse foi o início da Sound Particles

Tudo na vida tem vantagens e desvantagens, e o facto de Portugal ter um mercado nacional muito pequeno faz com que as nossas startups pensem, desde cedo, no mercado global. Se calhar, é essa a razão de termos muitos mais "unicórnios" do que seria expectável para um país pequeno como o nosso.

Por exemplo, se olharmos para as indústrias criativas, esta dualidade está muito presente. Por um lado, temos um mercado nacional muito pequeno, praticamente proibitivo para se criar conteúdos criativos, como filmes, videojogos, música, etc. Mas olhando de outra perspetiva, estamos num mundo global, onde qualquer empresa ou startup pode criar conteúdos para qualquer outra parte do mundo. Quem disse que a próxima Pixar não pode ser portuguesa?!

Hoje em dia, as startups portuguesas dão cartas em vários mercados: umas trabalham para a NASA, outras para os principais bancos mundiais e outras com estúdios de Hollywood. Mas acho que temos potencial para muito mais. Por vezes, é o não acreditar, ou o medo de sonhar, que faz com que nós próprios sejamos o nosso maior inimigo.

Nova rubrica
Countdown to WebSummit 2022 é uma nova rubrica no Diário de Notícias que antevê algumas das tendências que vão marcar o próximo encontro mundial das startups no final de outubro, em Lisboa. Até à semana do evento, estarão em análise as oportunidades e os desafios dos investidores, os exemplos inspiradores e as novidades que vão marcar a agenda dos empreendedores nacionais e mundiais. O palco passa por aqui, com a reflexão de especialistas numa nova série de artigos de opinião. O artigo publicado esta quinta-feira tem a assinatura de Nuno Fonseca, CEO da Sound Particles.

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