China espirra e Lisboa perde 900 milhões

Receios de abrandamento económico do gigante asiático originam fecho antecipado das praças chinesas e ditam pior arranque de sempre das bolsas europeias. Capitalização do índice PSI 20 já está abaixo dos 50 mil milhões

Os mercados acionistas mundiais entraram no novo ano com o pé esquerdo. A divulgação de indicadores económicos dececionantes na China foi o rastilho suficiente para reacender os receios dos investidores quanto a um possível abrandamento do gigante asiático e provocar, pela primeira vez na sua história, o encerramento antecipado das praças chinesas. Os efeitos de contágio não demoraram a fazer-se sentir e refletiram-se num crash bolsista à escala mundial. As praças europeias arrecadaram o pior arranque de ano de sempre e nem Lisboa escapou, com o índice de referência PSI 20 a perder mais de 900 milhões de euros do seu valor na primeira sessão de 2016.

"A queda acentuada das bolsas chinesas deveu-se a um conjunto explosivo de fatores negativos, nomeadamente os dados fracos no índice oficial de gestores de compras na manufatura, a suspensão na negociação quando o mercado caiu 5% - que incentivou vários investidores a vender assim que a negociação foi retomada - e os receios sobre o impacto da subida das taxas norte-americanas nos mercados emergentes", explicou Steven Santos, gestor do BiG, ao DN/Dinheiro Vivo. Mais concretamente, a atividade industrial chinesa caiu pelo décimo mês consecutivo em dezembro, e a um ritmo mais forte do que no mês anterior, ao mesmo tempo que o banco central do país fez uma desvalorização da moeda, tendo baixado a cotação do yuan face ao dólar para o valor mais baixo desde 2011.

Os sinais de fraqueza da segunda maior economia mundial desencadearam vendas maciças nas praças chinesas que tiveram de ser, pela primeira vez na sua história, encerradas antes do horário de fecho oficial. O índice CSI 300, que agrega 300 empresas cotadas dos dois índice chineses (Shanghai e Shenzhen), seguia a desvalorizar 5% quando o "interruptor de circuito" - mecanismo que entrou em vigor com o objetivo de impedir fortes flutuações do mercado acionista - foi acionado e suspendeu a negociação das ações chinesas durante 15 minutos. Contudo, a pausa não foi suficiente para acalmar o nervosismo dos investidores.

"O facto de as bolsas chinesas ainda serem dominadas por investidores particulares causa maior volatilidade, uma vez que reagem mais impulsivamente à suspensão da negociação e às notícias", salientou Steven Santos. De facto, quando a negociação foi retomada as quedas agravaram-se para os 7%, obrigando as autoridades reguladoras chinesas a fechar as bolsas uma hora e meia antes do fecho habitual. Mas a tendência vendedora acabaria por não se cingir apenas aos mercados chineses.

Europa com pior arranque

As ações europeias fecharam a primeira sessão do ano com o pior desempenho desde que há registo, com o índice Stoxx 600 - que reúne as maiores empresas cotadas europeias - a desvalorizar 2,5% (ver gráfico). Uma análise mais pormenorizada às praças europeias, revela que as perdas oscilaram entre os 2,4% do índice britânico e os 4,3% da praça alemã.

Lisboa não foi exceção e perdeu mais de 900 milhões de euros na primeira sessão do ano. O índice de referência nacional, o PSI 20, fechou a perder 1,5% e viu a capitalização bolsista conjunta das 17 empresas que o compõem recuar abaixo do patamar dos 50 mil milhões de euros. Se no final de 2015 o PSI 20 estava avaliado em 50,61 mil milhões, hoje o market cap total ascende a 49,68 mil milhões. Ou seja, a Bolsa de Lisboa emagreceu 923 milhões em apenas um dia.

"A bolsa nacional foi arrastada pelo sentimento negativo. Curiosamente, foram algumas das ações que mais subiram em 2015, como a Altri, a Jerónimo Martins e a Galp Energia, que tiveram uma desvalorização diária maior, o que poderá refletir algum rebalanceamento nas carteiras", salientou Steven Santos. Os números confirmam a teoria, uma vez que entre as cotadas que mais valor de mercado perderam na primeira sessão do ano estiveram os pesos-pesados. A EDP viu a sua capitalização recuar em 420 milhões, acompanhada pela Galp Energia que desvalorizou 262 milhões e a Jerónimo Martins perdeu 227 milhões do seu valor.

À hora de fecho desta edição, os mercados acionistas norte-americanos seguiam com quedas superiores a 2%, com Wall Street a espelhar não só o susto provocado pela China mas igualmente penalizado pela maior queda em mais de seis anos da atividade industrial norte-americana e pelo escalar das tensões no Médio Oriente, depois de a Arábia Saudita ter cortado relações com o Irão.

Os analistas não antecipam, para já, uma recuperação dos mercados, uma vez que daqui a dois dias termina a proibição dos grandes acionistas, administradores e gestores chineses venderem as ações das suas empresas, o que poderá ditar novas perdas.

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