Bruxelas. Crise de pessoal na aviação derruba retoma portuguesa

Costuma-se dizer que quanto maior a subida, maior a queda. Em 2023, o tombo no ritmo de expansão da economia nacional vai ser o maior no grupo dos 27 países da União Europeia (UE), mostram a Comissão Europeia.

A alta dependência de Portugal face ao turismo estrangeiro acabou por ser o maior trunfo da retoma deste ano, com o País a caminho do maior crescimento da Europa em 2022, previu ontem a Comissão Europeia (CE). No entanto, quanto maior a subida, maior a queda. Em 2023, o tombo no ritmo de expansão da economia nacional vai ser o maior no grupo dos 27 países da União Europeia (UE).

Ou seja, essa mesma exposição elevada ao turismo externo, mas agora aliada à crise de pessoal no setor da aviação (que aliás já está a provocar pesados constrangimentos na circulação de passageiros) vai ser determinante para ditar um colapso no ritmo de retoma, diz Bruxelas nas previsões de verão de 2022.

Em 2023, a taxa de crescimento da economia portuguesa continua a ser positiva, mas sofre a maior travagem da Europa. É o efeito da guerra e da "escassez de pessoal no setor da aviação", avisa a CE.

O comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, alertou que o forte crescimento previsto para este ano (em média, 6,5% em termos reais) "baseia-se substancialmente" numa dinâmica que esteve mais circunscrita ao primeiro trimestre. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também já tinha chamado a atenção para o fenómeno.

Não será tanto a economia que está a recuperar em toda a linha, mas a "expansão excecional" das exportações de serviços registada no período de janeiro a março, sobretudo turismo, explicou o comissário na conferência de imprensa de apresentação das previsões de verão, ontem em Bruxelas.

No primeiro trimestre deste ano, a economia avançou uns significativos 2,6% (em cadeia, face ao último trimestre de 2021), mas no segundo trimestre deve cair 0,2%, continuando depois a um ritmo de 0,4% até final do ano, dizem as novas projeções.

"Após um forte início de ano, espera-se que o crescimento de Portugal seja moderado em termos trimestrais", mantendo-se "significativo em termos anualizados, em 2022".

"Prevê-se que as exportações de serviços contribuam mais para o crescimento, refletindo uma expansão excecional de 75% no primeiro trimestre do ano face a igual período de 2021", refere a CE.

"Isto foi claramente suportado pela recuperação do sector do turismo, com as estadias noturnas de não-residentes a crescerem 846% no mesmo período, embora estas ainda se encontrem 26% abaixo do nível pré-pandémico."

"Os dados mais recentes sugerem que continua a haver um desempenho forte no turismo, com voos internacionais e visitas turísticas estrangeiras a atingir quase o nível pré-pandémico no segundo trimestre de 2022", continua a Comissão.

No entanto, "os indicadores de curto prazo sugerem um abrandamento do consumo privado, da produção industrial e da construção, num contexto de pressões crescentes dos custos decorrentes dos preços da energia e das restrições globais nos abastecimentos. Prevê-se também que a procura mais fraca dos parceiros comerciais tenha um peso negativo nas exportações de mercadorias portuguesas".

Assim, como referido, tudo considerado, a CE espera que "em termos anuais, o crescimento se mantenha forte, em cerca de 6,5% em 2022, refletindo o balanço ganho no primeiro trimestre e a contínua recuperação do turismo".

Mas em 2023, o ritmo da retoma cai para menos de um terço, para apenas 1,9%. De acordo com cálculos do Dinheiro Vivo a partir da base de dados da CE, Portugal continua a crescer acima da média europeia (1,4% na zona euro e 1,5% na UE), mas o tombo no ritmo será o maior de todos (menos 4,6 pontos percentuais face à previsão de 2022).

O executivo comunitário explica este ajustamento com "um menor crescimento do consumo privado e do investimento, bem como uma procura externa moderada".

E a tendência subjacente a este cenário é desfavorável, como o é para os outros países da Europa devido à incerteza global, ao choque petrolífero e à guerra, que não se sabe quanto tempo irá durar.

"Os riscos para as perspetivas de crescimento de Portugal permanecem negativos em resultado da guerra da Rússia contra a Ucrânia e, mais recentemente, num contexto de preocupações crescentes sobre a escassez de pessoal no setor da aviação, o que pode ter repercussões negativas nas visitas turísticas estrangeiras a Portugal", adverte Bruxelas.

Inflação pressiona cada vez mais

Segundo a Comissão, a inflação portuguesa "subiu substancialmente para 8,2% (homóloga) no segundo trimestre de 2022, impulsionada por um aumento acentuado dos preços da energia e dos produtos alimentares".

"Os preços dos serviços também aumentaram, refletindo uma vasta gama de fatores, incluindo uma procura mais reprimida, efeitos de repercussão da energia nos serviços de transporte, bem como grandes efeitos de base nos preços do alojamento e do transporte aéreo", elenca o novo estudo.

E acrescenta-se que "à luz dos atuais preços elevados da energia, prevê-se que a inflação modere apenas marginalmente na segunda metade de 2022". Assim, Bruxelas prevê que a inflação média fique nos 6,8% este ano e que no próximo possa aliviar para 3,6%.

No entanto, Bruxelas nota que existem "pressões de ajustamento salarial" em alta num contexto de emprego historicamente elevado que vão fazer com que a inflação subjacente [sem as componentes da energia e dos produtos alimentares básicos] supere a taxa de inflação total (3,6%) prevista para 2023.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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