Brexit penaliza mais Portugal do que Alemanha, França e Itália

Danos diretos sobre a economia portuguesa podem ascender 1150 milhões de euros em 2020 e 2021. Maior destruição na Europa continental é na Irlanda, na Bélgica e na Holanda.

A economia portuguesa pode sofrer mais do que Alemanha, França e Itália na sequência da saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo, alerta a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE).

Num estudo relativo às economias mais desenvolvidas do mundo, a OCDE calcula que o impacto acumulado de um Brexit sem acordo até 2021 pode custar o equivalente a 0,53% do produto interno bruto (PIB) nos primeiros dois anos a seguir ao divórcio.

Aquele valor traduz-se numa erosão direta do PIB português superior 1150 milhões de euros em 2020 e 2021, segundo cálculos do Dinheiro Vivo com base nos pressupostos da OCDE. Este impacto negativo de 0,53% supera o de Itália (-0,52% do PIB em dois anos), Alemanha (-0,49%) e de França (-0,46%), de acordo com dados fornecidos pela organização chefiada por Angel Gurría.

O Brexit tinha data marcada para 31 de outubro deste ano, mas com todos os impasses políticos e até o caos interno no Reino Unido, a União Europeia concordou em adiar (outra vez) a data da separação para 31 de janeiro do ano que vem.

Excetuando o Reino Unido, que é o país que mais sofrerá com a separação da UE, as três economias europeias que mais se ressentirão com o Brexit são a vizinha Irlanda (redução de 1,46% do PIB), a seguir a Bélgica (-0,9%) e em terceiro a Holanda (-0,88%).

Mas a OCDE fez contas para 21 países da UE e conclui que nenhum fica a ganhar. Os menores impactos devem ser sentidos pela Eslovénia e pela Hungria - ambas as economias perdem o equivalente a 0,37% do seu PIB nos dois primeiros anos a seguir ao Brexit.

Num comentário mais genérico sobre os estragos que o Brexit pode infligir à Europa, a OCDE avisa que "a médio e longo prazo teremos reduções consideráveis no comércio entre o Reino Unido e a UE em alguns setores em que os custos comerciais aumentam significativamente, principalmente no setor automóvel e dos componentes, nos têxteis e nos serviços financeiros".

Portugal está a meio da tabela neste estudo da OCDE, mas a situação é delicada.

O Reino Unido é o quarto melhor cliente das exportações de mercadorias portuguesas (fica com 6% do bolo total) e os valores faturados pelas empresas portuguesas já começaram a cair. Nos oito meses que vão de janeiro a agosto deste ano, a quebra nas exportações nacionais para o Reino Unido foi de 0,5% face a igual período de 2018, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Turismo na sombra

O mesmo no turismo, o que está a causar apreensão crescente aos agentes deste setor em Portugal.

Em 2018, diz o INE, "o Reino Unido manteve-se como principal mercado emissor" de turistas e de receitas, representando "19,5% do total de dormidas de não residentes". No entanto, o mercado britânico registou "um decréscimo de 5,3% em 2018" no indicador de dormidas.

Neste ano, até setembro, o mercado emissor britânico está aparentemente estagnado. É o principal mercado em número de turistas e dormidas. Mas também a principal fonte de receitas. Em 2018, os britânicos deixaram mais de 2,8 mil milhões de euros em faturação na economia portuguesa. Como Portugal fatura um total de 18,6 mil milhões de euros com viagens e turismo, significa que o mercado do Reino Unido, o maior de todos, garante 17% das verbas totais que entram por ano em Portugal.

Projeções recentes noticiadas pelo Dinheiro Vivo dão conta de um futuro que pode ser sombrio. No caso de um Brexit sem acordo, as viagens dos britânicos caem 7% já em 2020 e 8% no ano seguinte. Haverá menos oito milhões de turistas ingleses a viajar; Portugal deverá sentir uma quebra de cem mil pessoas (britânicas), mostram projeções do European Travel Commission (ETC).

"Uma saída sem acordo vai afetar os fluxos turísticos através das variáveis macroeconómicas, impactos no sentimento dos consumidores e disrupção no setor das viagens", revela a equipa de Eduardo Santander, diretor executivo da ETC.

A economia portuguesa precisa de crescer para manter o desemprego baixo e para resolver o já prolongado e perigo problema das contas públicas, designadamente para conseguir reduzir a enorme dívida pública. A privada também é muito elevada, pelo que o raciocínio é idêntico.

No entanto, os perigos externos, como o Brexit, estão à espreita e podem dificultar ou atrasar todo o processo de recuperação da economia.

Segundo a OCDE, a economia portuguesa deve conseguir aguentar um ritmo abaixo, mas perto de 2% nos dois próximos anos suportado por um crescimento bastante moderado dos custos do trabalho, por mais competitividade e pelo recebimento de fundos europeus, que ajudarão o investimento e a criação de emprego, sobretudo em 2021.

A OCDE reviu ligeiramente em alta o ritmo de crescimento de Portugal (uma décima) em 2019, para 1,9%, mas cortou a previsão de 2020 nessa exata proporção, para 1,8%. A economia portuguesa já está, portanto, em abrandamento. O ritmo das exportações deve afundar de 2,7% neste ano para apenas 1,1% no ano que vem, um mínimo de muitos anos.

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