Autoeuropa tem de chegar a acordo de novo horário até final do ano

Greve histórica resultou em reunião entre administração e sindicatos, na próxima semana. Linha de produção esteve parada

A Autoeuropa tem até ao final deste ano para chegar a um acordo relativo aos novos horários, que vão entrar em vigor em fevereiro de 2018. António Chora, o histórico líder da comissão de trabalhadores, assinalou ontem que "há tempo mais do que suficiente para negociar". Até lá, a unidade do grupo Volkswagen em Portugal deve manter-se numa situação de bloqueio. A nova comissão de trabalhadores (CT) só será conhecida a 3 de outubro.

"Até 3 de outubro vai manter-se o impasse. Vamos ver se a nova comissão de trabalhadores tem ideias frescas. É preciso encontrar soluções", assinala Chora em declarações ao DN/Dinheiro Vivo. O ex-líder da CT, no entanto, também admite que, "apesar de os operários voltarem a trabalhar amanhã [hoje] normalmente, o clima de desgaste mantém-se". E isso mesmo foi referido ontem por vários operários à porta da entrada da fábrica de Palmela.

"Já tive orgulho em trabalhar na Autoeuropa, agora tenho vergonha", queixa-se José Teles. Há 20 anos na área da carroçaria, este operário contesta a proposta da equipa de gestão, liderada por Miguel Sanches. "Queremos fazer ver à administração que estamos aqui para trabalhar. Mas não queremos perder direitos, ao contrário do que tem acontecido em nome dos postos de trabalho." José está acompanhado da mulher, Carla, que também está na Autoeuropa há 20 anos: "Se o novo horário avançar, só vamos poder estar juntos ao domingo. Não é viável." José e Carla Teles têm três filhos.

O novo horário prevê que a Autoeuropa funcione, a partir de fevereiro, em 18 turnos, seis dias por semana, e que os trabalhadores passem a laborar entre segunda--feira e sábado, com uma folga fixa ao domingo e uma folga rotativa a meio da semana (ver infografia). Só desta forma, entende a fábrica, é possível produzir 240 mil unidades por ano e satisfazer a procura pelo novo modelo da Autoeuropa, o veículo utilitário desportivo T-Roc.

Em troca, a administração elaborou um pré-acordo com a CT que previa um aumento mínimo do salário de 16%, um bónus de 175 euros, a redução do horário de trabalho para 38,2 horas semanais e a atribuição de mais um dia de férias. Cerca de três quartos dos trabalhadores (74,8%) recusaram a proposta em referendo realizado no final de julho.

"Sempre trabalhei por turnos mas não assinei qualquer contrato para trabalhar ao fim de semana", reclama Joaquim Narciso, há mais de duas décadas na área de pintura da Autoeuropa. Os operários também entendem que o novo horário é nocivo para a saúde e pode prejudicar as relações familiares. "É uma mudança muito violenta, sobretudo para quem está no turno da noite. Devia haver duas folgas consecutivas, em especial para quem está neste horário", entende Pedro Flamino, há 23 anos na secção de qualidade da Autoeuropa.

A greve de 24 horas impediu a saída de 400 veículos da fábrica, devido à paragem da linha de produção. Segundo as estimativas do DN/DV, a paralisação poderá ter custado até cinco milhões de euros ao nível da produção, montante que poderá ser recuperado ao longo dos próximos dias, porque o novo modelo ainda não entrou em velocidade de cruzeiro.

A Autoeuropa comunicou que 41% da força de trabalho fez greve. O número inclui todas as áreas, estejam ou não dentro da cadeia de produção. Os sindicatos anunciaram que o protesto foi 100% eficaz e que não houve qualquer área de produção a funcionar .

Da greve resultou uma reunião com os sindicatos, agendada para 7 de setembro, mas que servirá apenas para "ouvir as partes". Só serão retomadas negociações quando houver uma comissão de trabalhadores eleita. Os operários já estão a formar várias listas; pelo menos uma delas deverá ser constituída por membros da comissão de trabalhadores demissionária, que deverá ser independente dos sindicatos, apurou o DN/DV.

Antes da reunião da próxima semana, está marcada para amanhã a apresentação interna do T-Roc. O diretor-geral da Autoeuropa, Miguel Sanches, deverá marcar presença. Contestado, o líder da fábrica de Palmela "está a ser pressionado por muitos tubarões", no entender de António Chora. "O carro foi aceite em 2015 com a condição de haver trabalho contínuo. Na altura, não se falou de mais nenhuma condição", nem sequer da hipótese de folgas não consecutivas.

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