Os bravos que mantêm a linha do Douro por amor aos comboios

Desde 2018 que o grupo ​​​​​​​The Brave Ones repara troço de nove quilómetros entre Pocinho e Côa de forma voluntária e apenas com os próprios meios, para ajudar a reabrir a linha.

Diogo Ferreira Nunes
José Costa (em cima) conduz o V7. Da esquerda para a direita: João Moreira, Carlos Jesus e Vítor Gomes© André Rolo/Global Imagens

Várias seleções europeias de remo têm escolhido o Pocinho para se prepararem para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Foi instalado aí o centro de alto rendimento, aproveitando a plenitude do rio Douro naquele local. Numa das margens, desde outubro de 1988 que os comboios da linha do Douro não passam ali rumo à fronteira.

A ligação até Barca de Alva esteve sem cuidados desde 2004, apesar de ainda pertencer ao Estado, através da Infraestruturas de Portugal (IP). Mas um pequeno grupo de apaixonados pelo comboio começou há três anos a fazer o que parecia impossível: recuperar o percurso de nove quilómetros entre o Pocinho e o Côa sem receber nada em troca. O grupo The Brave Ones, fundado em 2007, é constituído pelos heróis que querem os comboios de volta aos carris.

"Há o cuidado de, enquanto sociedade civil, preservarmos um bem que é de todos. Já nos propusemos oferecer os nossos veículos para qualquer manutenção pesada que queiram fazer. Com o trabalho que estamos a fazer, um veículo de manutenção da IP ficará habilitado a passar por aqui", resume ao Dinheiro Vivo um dos fundadores do grupo, José Costa.

Desde 2018 que os entusiastas prescindem do seu tempo pessoal para recuperar a linha. Realinhar carris, colocar travessas de madeira, cortar árvores foram alguns dos trabalhos realizados.

Também houve tempo para retirar pedras gigantes apenas com a ajuda de um macaco hidráulico, sem recorrer a gruas ou outros meios mais pesados.

Voluntários recorrem a meios próprios para realizarem as reparações, iniciadas em 2018, e que apenas são feitas nos tempos livres© André Rolo/Global Imagens

O quarteto usa unicamente meios próprios para reparar a linha: escadote, luvas, caixa de ferramentas, barras de madeira nas laterais, berbequim, pá, parafusos e anilhas da linha soltos ou aproveitados de outros pontos do troço. Um verdadeiro exemplo de economia circular, segundo a linguagem contemporânea.

No dia em que visitámos o Pocinho, havia quatro homens a representar o grupo, nenhum deles daquela região. José Costa é do Porto, Vítor Gomes mora em São João da Madeira, João Moreira reside em Cête, Carlos Jesus tem base em Freamunde. Eles circulam na linha graças a um veículo ferroviário construído por José Costa (ver foto).

Foi a primeira vez neste ano que os Brave Ones foram ao Pocinho. Devido ao segundo confinamento, foi impossível cuidarem da linha desde o final do ano passado. Além de retirar parte da vegetação em excesso, foi preciso unir os carris separados através de uma travessa de ferro.

"Não havendo uma junção de carril, a linha tem tendência a sair do sítio e depois há o risco de descarrilamento", assinalam João e Carlos, enquanto furam e martelam para que o trabalho fique direito.

Ao mesmo tempo, Vítor Gomes vai percorrendo a linha a pé e marcando com um spray, sobre os carris, as velocidades máximas permitidas naquele troço. Nas próximas semanas, os Brave Ones vão colocar várias placas junto à via, contribuindo para a segurança dos utilizadores.

Naquele dia houve almoço volante junto à Casa da Linha Férrea, antiga casa de cantoneiros convertida em alojamento local ao ponto quilométrico 173,822.

É com o V7 que os quatro bravos do Douro conseguem mover-se pelo troço sem terem de andar a pé. Este veículo foi construído por José Costa e pesa 425 kg. Funciona com o motor de uma moto4 de 250 cm3, embora sem marcha atrás.© André Rolo/Global Imagens

Esta unidade foi concessionada pela IP ao abrigo de um protocolo, e a empresa pública fez questão de lá colocar quatro pilaretes para recordar que aquilo é património do Estado.

Uns metros adiante, contudo, ainda existem os postes que foram usados para a comunicação entre estações. A jornada de reparação acabou mais cedo do que o previsto por causa da forte chuvada na parte da tarde.

Também o trabalho destes bravos voluntários está prestes a chegar ao fim, depois de quatro anos de tempo livre gasto para fazer o trabalho que deveria estar a cargo do Estado.

Grupo de trabalho para reabertura

Vai ser criado um grupo de trabalho para definir qual o melhor modelo de reabertura do troço da Linha do Douro entre as estações do Pocinho e Barca de Alva. A equipa será liderada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte e contará com o apoio do Ministério da Coesão Territorial e da IP. "A ideia é definirmos que modelo queremos para retomar esse troço. O grupo de trabalho vai fazer a análise custo-benefício e vai tentar perceber, com os atores da região, o melhor modelo para essa retoma", referiu a ministra Ana Abrunhosa. As conclusões serão conhecidas até ao final de 2021. O modelo-base deverá passar pela reabertura da linha para o transporte de turistas, mas não está excluído o serviço de mercadorias. A reabertura da Linha do Douro até à fronteira implica um investimento de 43 milhões de euros, segundo um estudo de 2017 da IP.

jornalista do Dinheiro Vivo