OPEP+ corta produção de petróleo, preços sobem e Biden critica "decisão míope"

A aliança dos produtores de petróleo OPEP+, liderada pela Arábia Saudita e Rússia, decidiu esta quarta-feira, em Viena, reduzir a sua produção em 2 milhões de barris por dia, o que representa o maior corte desde a pandemia de covid-19

DN com agências
Reunião da OPEP que levou ao corte de produção© EPA/Christian Bruna

O anúncio foi feito pelo vice-ministro do Petróleo do Irão, Amir Hossein Zamaninia, no final de uma conferência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP - ou OPEC, na sigla original em inglês) e dos seus 10 países produtores aliados, incluindo a Rússia, o México e o Cazaquistão.

O corte na produção já era esperado e é justificado pela forte queda dos preços do petróleo nas últimas semanas, esperando-se que a decisão permita incentivar uma recuperação dos valores pagos à OPEP.

Os preços do petróleo caíram de cerca de 120 para 90 dólares (de cerca de 121 euros para 91,3) nos últimos três meses devido ao receio de uma recessão económica global, mas também devido ao aumento das taxas de juros nos Estados Unidos e à subida do valor do dólar.

A descida de produção, que terá início a partir de novembro, é a maior desde maio de 2020, quando estava no início a pandemia de Covid-19, e foi aprovada pelos membros da aliança a pouco mais de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos.

O Presidente norte-americano, Joe Biden, que luta há meses para tentar conter a subida de preços que está a corroer o poder de compra das famílias - tendo mesmo ido a Riade em julho para defender a sua posição -, já anunciou a sua crítica à "decisão míope" da OPEP.

O presidente Joe Biden está "dececionado" com a decisão do cartel da Opep+ de reduzir a produção de petróleo e acredita que isso prejudicará a economia mundial, disse a Casa Branca, em comunicado assinado pelo conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan e pelo principal conselheiro económico Brian Deese.

OPEP diz que "não se rege por questões políticas"

Questionado à sua chegada a Viena para a reunião de hoje, o ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Souhail ben Mohammed Al-Mazrouei, alegou que a OPEP+ é uma "organização técnica" que não se rege por questões políticas.

Criada em 1960 com o objetivo de regular a produção e o preço do petróleo bruto, por meio do estabelecimento de cotas, a OPEP estendeu-se em 2006 à Rússia e a outros parceiros para formar a OPEP+.

Num gesto histórico, os membros da aliança decidiram, na primavera de 2020, cortar a sua produção em quase 10 milhões de barris diários para enfrentar o colapso da procura ligado à pandemia de Covid-19.

Já em setembro passado, o grupo tinha baixado ligeiramente a sua meta (em 100.000 barris), alegando que estava pronto para diminuir mais.

Depois de ter disparado no início da semana, o preço do barril de Brent do Mar do Norte estava, esta manhã, nos 91,84 dólares, enquanto o seu homólogo norte-americano, o WTI, estava nos 86,36 dólares o barril.

Os preços do petróleo subiram já nesta quarta-feira, quando a Opep e os aliados liderados pela Rússia anunciaram um grande corte na produção, enquanto o mercado bolsista perdeu gás.

Os preços do petróleo tinham voltado aos níveis anteriores à guerra na Ucrânia nas últimas semanas devido a preocupações de uma desaceleração económica global, mas voltaram a aumentar nos últimos dias devido às expectativas de corte na produção.
O principal contrato internacional de petróleo, o Brent, saltou dois por cento após a decisão.

"Espera-se que os futuros de petróleo continuem em alta no curto e médio prazo, mas as preocupações contínuas com uma recessão global e o aumento da inflação provavelmente limitarão a subida a longo prazo", disse Srijan Katyal, chefe global de estratégia e serviços comerciais da corretora internacional ADSS.

Analista da Swissquote, Ipek Ozkardeskaya alertou que o grande corte pode "sair pela culatra" à Opep + se os investidores temerem que a decisão aumente a inflação e force os bancos centrais a aumentar tanto as taxas de juros que venha a desencadear uma recessão. "Quanto mais altos os preços da energia, mais os bancos centrais devem matar a procura para baixar os preços".

Reservas norte-americanas no nível mais baixo desde 1984

O corte de oferta atingirá países "que já estão a sofrer" com os altos preços, enquanto "a economia global está a lidar com o impacto negativo contínuo" do ataque da Rússia à Ucrânia, disse a Casa Branca em comunicado.

A decisão da Opep+, que veio apesar do lobi frenético de Washington, coloca Biden e o seu partido democrata num impasse ao potencializar aumentos nos preços dos combustíveis apenas cinco semanas antes das eleições intercalares norte-americanas, nas quais os republicanos esperam assumir o controlo do Congresso.

"Está claro que a Opep+ está a alinhar-se com a Rússia com o anúncio de hoje", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, a bordo do Air Force One.

O comunicado da Casa Branca acrescenta que Biden vai ordenar novo recurso à Reserva Estratégica de Petróleo do país, com 10 milhões de barris programados para serem colocados no mercado no próximo mês, na tentativa de amortecer os aumentos dos preços.

No entanto, essas reservas estão a esgotar-se rapidamente após saques recordes ordenados pelo governo, desde março último. As reservas estão agora no seu nível mais baixo desde julho de 1984 e não está claro quando a administração Biden planeia reforçar essas reservas.

Os próximos lançamentos continuarão "conforme apropriado para proteger os consumidores americanos e promover a segurança energética, e (Biden) está a orientar o secretário de energia a explorar quaisquer ações responsáveis ​​adicionais para continuar a aumentar a produção doméstica no curto prazo", disse o comunicado.

Além disso, o governo "consultará o Congresso sobre ferramentas e autoridades adicionais para reduzir o controlo da Opep sobre os preços da energia", acrescenta a Casa Branca.

Juntamente com os atrasos na cadeia de distribuição após as paralisações do Covid-19, os altos preços dos combustíveis são os culpados por ajudar a impulsionar a inflação mais alta nos Estados Unidos em quatro décadas.