Américo Amorim. "O dia tem 24 horas, e ainda há a noite"

Herdou a gestão da corticeira fundada pelo avô e transformou o negócio de família num império. Morreu o homem mais rico de Portugal

Era conhecido como o "rei da cortiça" e o homem mais rico de Portugal, com uma fortuna superior à do presidente americano Donald Trump. Américo Amorim tinha o toque de Midas e era raro o negócio em que se envolvia sem sucesso. "Nunca ninguém conseguiu ter tanto sucesso em tantos setores e em tantos países durante tanto tempo." O resumo quase perfeito da vida e carreira do empresário Américo Amorim, que morreu ontem a poucos dias de completar 83 anos, é feito pelo ex-secretário de Estado da Indústria João Vasconcelos, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, que lembra o empresário como "um exemplo de empreendedorismo, liderança e gestão". "Sermos líderes mundiais num produto e numa indústria deve-se a ele. Perdemos o maior embaixador da nossa indústria."

Em comunicado, o grupo Amorim confirmou ontem a morte do empresário, sublinhando que "o percurso de Américo Amorim ficará indelevelmente associado à história do setor da cortiça e da Corticeira Amorim". O funeral é sábado de manhã, no Mosteiro de Grijó.

Ao mesmo tempo foi um gestor temido e admirado. Amorim era um homem discreto, duro no trato e na negociação e com uma energia incansável, tendo trabalhado quase até ao final da vida. Nos últimos meses, já doente, surpreendeu por várias vezes os seus quadros surgindo de rompante em reuniões para dar a sua opinião sobre assuntos estratégicos. Nada parecia fazê-lo vergar, até a doença ter levado a melhor.

Aos 82 anos colecionava um enorme portfólio de empresas, onde se destaca a participação na Galp Energia e a Corticeira Amorim, onde o império nasceu. Com sede em Mozelos, Santa Maria da Feira (terra natal do empresário), o grupo Amorim fez passar os seus investimentos também pela banca: BIC, Banco Popular, Banco Único de Moçambique e Banco Carregosa. O imobiliário e a floresta também foram áreas de aposta do multimilionário.

João Duque, economista e professor do ISEG, recorda um homem "tenaz", conhecido por ser muito poupado ou "até mesmo forreta" e que exercia "um controlo férreo sobre a despesa". Aliás, é relatado por alguns trabalhadores o velho hábito de Amorim passar pelos corredores das suas empresas sempre com um caderninho na mão onde ia tomando notas do que não estaria bem ou do que seria despesa em excesso. "Era um capitalista que adorava comunistas, veja-se a forma como conquistou o Leste da Europa. Foi um caçador de negócios."

Muitos gestores que trabalharam com Amorim por vários anos enaltecem "a persistência" e acima de tudo "a capacidade de sair dos negócios no momento certo, como foi o caso da área imobiliária e do BCP". Destacada é ainda a "tenacidade e a visão", pois "tinha a capacidade de ver dois ou três passos à frente dos outros, de ler as tendências". Dizem os gestores que, apesar de ser "muito temido, era a forma de manifestar a sua exigência para consigo e para com os outros". O que o fazia perder a paciência e levantar a voz? "A incompetência", responde um dos empresários. "Os outros tinham, por vezes, dificuldade em acompanhá-lo e era implacável com esses."

Por outro lado, tinha preocupações de boa cidadania e "criou, por exemplo, dois bairros sociais, um em Mozelos e outro em Silves, para acolher os trabalhadores da Corticeira Amorim", recorda quem lá trabalhou. E mais: "Sabia partilhar a riqueza com os seus quadros", ou seja, sabia pagar bem a quem o fazia ganhar dinheiro. Tinha um foco inabalável e era um mestre na gestão do tempo, traçando com rigor as prioridades, recorda quem com ele reuniu muitas vezes. Preocupado com a família, apesar de ser um homem ausente de casa pelas muitas horas que passava a trabalhar, era um agregador. Nem sempre a família apreciava que Américo trabalhasse aos sábados e domingos", mas, como ele próprio dizia, "o dia tem 24 horas e ainda há a noite".

Nos últimos anos, a sucessão não era um tema que estivesse na sua lista de preocupações. Já tinha entregue a pasta da Corticeira Amorim ao sobrinho, António Rios de Amorim, e escolheu para chairman da Galp a filha Paula. "Assegurou assim o modelo de governação dos negócios, para que tivessem continuidade" e "deu liquidez aos seus ativos, colocando-os em bolsa", dizem gestores financeiros.

Na opinião de Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal, "são empresários como Amorim que fazem andar este país. Partindo de um setor tradicional, expandiu a atividade a outras áreas, com uma grande capacidade empreendedora e intuição. Por exemplo, "na banca, onde teve um papel importante no nascimento de projetos que acabaram por ser importantes para a economia e as empresas". Personalidade forte, presença de liderança e motivação, preocupação permanente de antecipar o futuro e agir em consequência, homem de sucesso, lembra Fernando Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, definindo Amorim como "um dos maiores empresários portugueses, presente em todo o mundo". No mundo académico, o reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, sublinha "um dos raros grandes dirigentes e visionários da indústria portuguesa", o primeiro a apostar na inovação e em recursos humanos qualificados para garantir a competitividade internacional das empresas portuguesas, mesmo em setores tão tradicionais como a cortiça.

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